
Location:
Paris, France
Networks:
RFI
Description:
Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.
Language:
Portuguese
Diácono brasileiro mostra como o luto pode ser pedagógico em livro nascido na pandemia
5/13/2026
O luto e as pequenas permanências que resistem ao tempo são o tema do livro do diácono permanente da Diocese de Ilhéus e escritor Rodrigo Dias de Souza, O Sabor das Coisas que Ficam (Nocego), lançado no ano passado e já traduzido para duas línguas, espanhol e italiano. A obra apresenta uma narrativa marcada pela espiritualidade e pelo afeto.
“Durante a Covid, assim como no Brasil e em todo o mundo, enfrentamos a dificuldade, ou melhor, a impossibilidade, de realizar os rituais de despedida das pessoas que amamos", lembra o diácono, para explicar a origem de seu quinto livro. "Diante daquela circunstância tão dolorosa para o povo brasileiro, sobretudo para aqueles que perderam um número imenso de parentes e amigos, fiquei pensando em uma geração que não teve a oportunidade de vivenciar o luto”, resume o autor.
Segundo ele, o projeto parte dessa perspectiva. “Não apenas do luto pela pessoa que perdemos, mas também dos tantos lutos que experimentamos ao longo da vida: a perda de uma amizade, a perda daquilo que amamos”.
“Assim, a pandemia surge como pano de fundo, mas sob a perspectiva de que o luto é pedagógico”, afirma.
A obra percorre paisagens simbólicas e existenciais – da romaria de Bom Jesus da Lapa, no coração do sertão baiano, às ruas de Roma, aos rios da Itália e também a Belém – para narrar histórias de pessoas comuns.
Este é o primeiro romance de Dias de Souza. O anterior, Em tempos de e-mail: cartas para Irene, aborda a exigência de rapidez nas sociedades contemporâneas, influenciadas pelas tecnologias – uma ideia que também fundamenta sua obra mais recente.
“Todo escritor não escreve a partir do abstrato. A gente escreve daquilo que a gente vive. Meu cotidiano é profundamente marcado pela presença das pequenas coisas, das miúdas coisas da vida. E elas, de fato, me marcam. Esse é o meu traço literário, o meu jeito de ser”, afirma.
"A proposta do livro Em tempos de e-mail: Cartas para Irene, que foi um divisor de águas na minha vida, é perceber outras urgências: a urgência de parar numa praça, de observar as pessoas, de contemplar o pôr do sol, algo tão necessário nos tempos em que vivemos, de observar os detalhes da vida, porque ela é feita de pequenos detalhes e eles mudam profundamente o destino de uma pessoa”, acrescenta.
Poesia do cotidiano
Rodrigo Dias de Souza participou, em 12 de maio, de um encontro sobre poesia lusófona, promovido pela Biblioteca Gulbenkian, na Cidade Universitária de Paris, ao lado dos poetas Alice Machado, António Topa e José Vala. O objetivo do evento foi promover o encontro entre autores de língua portuguesa de diferentes países, e leitores. Para ele, o momento foi "muito importante para encontrar e conhecer pessoas, além de destacar a poesia do cotidiano”.
“A poesia que encanta é aquela que nasce da vida concreta, do que é mais simples, como um pequeno quarto, frequentemente presente nas minhas poesias. Fiquei muito feliz de estar aqui, de participar desse evento, de conhecer outras pessoas. Mas, sobretudo, de perceber que a poesia simples do cotidiano ainda toca a alma das pessoas”, conclui.
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'Povo Brasileiro': a travessia sonora de Pierre Aderne inspirada em Darcy Ribeiro
5/13/2026
Entre a França, o Brasil e Portugal, Pierre Aderne construiu uma trajetória musical marcada pelo trânsito e pela escuta. Nascido em Toulouse, criado no Rio de Janeiro e radicado em Lisboa, o músico e produtor apresenta agora “Povo Brasileiro”, novo álbum do coletivo Rua das Pretas, projeto que sintetiza essa experiência entre margens do Atlântico. O grupo lançou o disco esta semana no L’Ermitage, em Paris, e chega ao Brasil para uma apresentação no Festival Remexe Rio, no dia 24 de maio.
O disco reúne músicos do Brasil, de Portugal e de Cabo Verde em uma leitura contemporânea desse território comum: plural, miscigenado e sem hierarquias impostas. Gravado na Casa Darcy Ribeiro, projetada por Oscar Niemeyer em Maricá (RJ), o álbum propõe um encontro orgânico entre linguagens musicais. Samba carioca, fado português, morna cabo‑verdiana, referências à capoeira, aos ijexás e afoxés se cruzam sem a pretensão de uma “fusão” planejada.
Segundo Aderne, essa conversa aconteceu de forma natural, como sempre ocorreu na música brasileira. “Assim como ninguém sabe exatamente por que a música brasileira chega à capoeira, a um ponto de candomblé ou a um frevo. Quando a gente é submetido a um campo novo de conhecimento, aquilo vira um sotaque orgânico.”
Essa forma de criar nasce da própria história da Rua das Pretas, coletivo fundado há cerca de 15 anos, em Lisboa, a partir de encontros musicais realizados na casa de Aderne. Inspirados nos saraus cariocas da rua Nascimento Silva, onde morou Tom Jobim, esses encontros reuniam músicos de trajetórias diversas e ampliaram o contato do artista com a África que também fala português – ainda que ele rejeite o termo “lusofonia”.
“É uma palavra desequilibrada. Prefiro pensar que essas matrizes nos pertencem a todos: portugueses, brasileiros, africanos. Isso me ajudou a entender melhor como se deu a nossa construção musical no Brasil.”
Com o tempo, essas reuniões informais se transformaram em um espaço constante de troca e criação, que deu identidade à Rua das Pretas como projeto musical e político, mais interessado na convivência entre histórias do que em categorias formais.
Darcy Ribeiro como chão simbólico
Embora o conceito do álbum venha sendo tecido há anos, especialmente na parceria com Moacir Luz, com quem Aderne compõe há cerca de cinco anos, a gravação em Maricá trouxe uma dimensão simbólica decisiva. A relação com Darcy Ribeiro também atravessa a vida pessoal do músico: sua mãe trabalhou com o antropólogo na Universidade de Brasília, no projeto que deu origem aos CIEPs.
“Gravar na casa do Darcy foi um encontro quase espiritual. A oportunidade de montar um estúdio dentro do museu. A gente estava, sem saber, construindo a trilha sonora daquele livro, O Povo Brasileiro, que foi tão estrutural para mim.”
O disco conta ainda com arranjos escritos por Kiko Horta, um dos criadores do Cordão do Boitatá, patrimônio imaterial do Rio de Janeiro. Aderne descreve esse encontro como a junção de uma “orquestra humana” – músicos do morro, da cidade e da África – com uma escrita musical que evoca nomes como Tom Jobim, Moacir Luz e outros mestres. “Foi como uma lavagem das caravelas. Como se a gente tivesse chegado a Maricá numa caravela diferente, dessa vez com músicos de três continentes.”
Vozes femininas e travessias
Entre as vozes femininas do álbum estão a cantora Zulu, da Ilha da Boa Vista, em Cabo Verde; a fadista portuguesa Ana Margarida Prado; e a flautista Letícia Malvares, brasileira radicada em Madri. Para Aderne, o impacto da gravação naquele espaço histórico foi profundo, especialmente para as intérpretes africana e portuguesa.
“Cabo Verde é quase uma clave de sol no meio do oceano, entre Lisboa e o Rio. Para a Zulu, estar ali foi muito simbólico. E a Ana Margarida ficou tocada ao lembrar daquela narrativa das lavadeiras portuguesas que, no início do século 20, cantavam fados na Fonte da Saudade, na Lagoa, com saudade da terrinha.”
Essas presenças femininas ajudam a ampliar o alcance...
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Livro de Leneide Duarte-Plon sobre general que exportou a tortura ao Cone Sul é publicado na França
5/11/2026
Dez anos depois de sua publicação no Brasil, o livro “A tortura como arma de guerra – da Argélia ao Brasil”, da jornalista e escritora brasileira Leneide Duarte‑Plon, acaba de ganhar edição em francês pela editora L’Harmattan. Lançada em 2016, a obra já havia sido traduzida para o árabe e publicada na Argélia no ano passado. Com base em documentos, entrevistas e investigação histórica, o livro demonstra que a tortura não foi um desvio, mas uma verdadeira doutrina de Estado, aplicada pela França durante a Guerra da Argélia (1954‑62) e posteriormente exportada para as ditaduras da América do Sul.
Leneide Duarte‑Plon viveu em Paris durante 24 anos, período em que trabalhou como jornalista e colaborou com diversos jornais e revistas brasileiros. Foi nesse contexto que escreveu, entre outros livros, “Um homem torturado – nos passos de Frei Tito de Alencar”, publicado no Brasil em 2014, em coautoria com Clarisse Meireles, e “A tortura como arma de guerra”, ambos dedicados à análise da tortura como instrumento de repressão estatal. A autora retornou ao Brasil no ano passado.
Em “A tortura como arma de guerra”, Leneide Duarte‑Plon reúne, entre outras entrevistas, aquelas realizadas com o general francês Paul Aussaresses, figura central desse sistema repressivo. Então coronel, ele foi chefe da repressão francesa na Argélia e um dos principais teóricos e executores da tortura, das execuções sumárias e dos desaparecimentos forçados. Defensor da ocultação dos corpos após interrogatórios e assassinatos, Aussaresses reconheceu à autora o papel pioneiro da França na institucionalização dessas práticas e confirmou, entre outros pontos, a participação do governo brasileiro no golpe que derrubou o presidente chileno Salvador Allende.
Em entrevista à RFI, Leneide fala sobre essa circulação da violência, seus encontros com o general Aussaresses e a atualidade do tema no Brasil de hoje.
RFI – No seu livro, você demonstra que a tortura não foi um desvio, mas uma doutrina de Estado, aplicada primeiro na Indochina, depois na Guerra da Argélia, e mais tarde exportada para a América do Sul. Como essa transferência de métodos se deu concretamente?
Leneide Duarte-Plon – Foi um pacote completo. Tudo se baseia nos trabalhos do general francês Roger Trinquier, autor de “La Guerre moderne”. Na Indochina, os franceses viram que enfrentavam uma guerra totalmente diferente: não era uma guerra convencional, com homens armados e um exército, mas uma guerra conduzida por guerrilheiros sem uniforme, disseminados na população civil, treinados na teoria da guerra revolucionária de Mao Tsé‑Tung.
A partir disso, os franceses teorizaram a guerra contra‑revolucionária, ou guerra antissubversiva, que depois foi aplicada na Argélia. Essa doutrina incluía a tortura, as execuções sumárias de prisioneiros, o desaparecimento de corpos e o interrogatório sob tortura, métodos que foram aperfeiçoados na Argélia e depois exportados.
RFI – No Brasil, após o golpe de 1964, essa doutrina foi apropriada em nome da luta anticomunista. Na prática, isso significou treinar as Forças Armadas para combater a própria população civil. Como essa lógica do “inimigo interno” se estruturou?
O inimigo deixou de ser um invasor estrangeiro e passou a ser o “subversivo”. Um general que cito no livro define claramente quem era esse inimigo interno: padres progressistas, professores universitários, estudantes, militantes políticos e guerrilheiros urbanos. Mesmo pessoas que não usavam armas, como padres que acolhiam perseguidos políticos ou ajudavam feridos, passaram a ser tratadas como inimigas.
Quando entrevistei o general Paul Aussaresses, ele foi direto: o que houve no Brasil foi uma guerra civil, brasileiros combatendo e reprimindo brasileiros. Essa definição era uma novidade para mim, porque eu nunca tinha ouvido ninguém dizer ou escrever que, na realidade, o que houve nas ditaduras do Chile, da Argentina e do Brasil foi, no fundo, uma guerra civil.
RFI – Você foi a única jornalista...
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Tatiana Leite volta a Cannes com 'Elefantes na Névoa' e reforça trajetória autoral
5/11/2026
A produtora brasileira Tatiana Leite volta a marcar presença no Festival de Cannes em 2026 com o longa‑metragem “Elefantes na Névoa”, selecionado para a mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar). A escolha do filme confirma a sintonia entre a Bubbles Project, produtora fundada por ela, e uma das seções mais voltadas à descoberta de novas vozes do cinema contemporâneo.
No ano passado, a produtora esteve na mesma mostra com “O Riso e a Faca”, coprodução entre Brasil, Portugal, França e Romênia, dirigida pelo cineasta português Pedro Pinho, que saiu de Cannes premiada com o troféu de Melhor Atriz para Cleo Diára. Agora, enquanto o novo filme se prepara para a estreia mundial na Croisette, “O Riso e a Faca” inicia sua trajetória comercial no Brasil, ampliando o diálogo entre os percursos internacionais e o encontro com o público brasileiro.
Ao comentar a recorrência da Bubbles Project na Un Certain Regard, Tatiana Leite observa que a afinidade entre seus projetos e a mostra não é fortuita. Para ela, a seção ocupa hoje um espaço singular dentro do festival: “É provavelmente a mostra de Cannes que realmente busca um cinema um pouco além do evidente”, afirma. Em contraste com a competição oficial, frequentemente ocupada por nomes já consagrados, a Un Certain Regard se tornou um território de acolhimento para propostas autorais mais ousadas, mas já amadurecidas do ponto de vista estético.
É nesse contexto que se insere “Elefantes na Névoa”, dirigido pelo nepalês Abinash Bikram Shah, em seu primeiro longa‑metragem. Tatiana teve contato com o projeto ainda em fase inicial, ao integrar a comissão de um fundo internacional de apoio ao cinema. O filme se passa em um vilarejo no Nepal, nos arredores de uma floresta habitada por elefantes selvagens, e acompanha Pirati, líder de uma comunidade Kinnar, cuja vida se transforma após o desaparecimento de uma de suas filhas.
A partir desse acontecimento, a narrativa se estrutura como uma investigação, atravessada por conflitos íntimos, sociais e pelos vínculos internos de uma comunidade historicamente marginalizada. Coprodução entre Nepal, Alemanha, Brasil, França e Noruega, o filme marca a estreia de Abinash Bikram Shah em longas, após uma trajetória de dois curtas e na escrita de roteiros exibidos em festivais internacionais.
“O Riso e a Faca”: chegada ao Brasil
Enquanto “Elefantes na Névoa” se prepara para sua première mundial, “O Riso e a Faca” ganha novo fôlego com a estreia nos cinemas brasileiros. O filme acompanha Sérgio, um engenheiro ambiental que viaja a uma grande cidade da África Ocidental para trabalhar, a serviço de uma ONG, na avaliação da construção de uma estrada entre o deserto e a selva. Ali, ele se envolve em uma relação íntima e assimétrica com Diára e Gui, vínculo que, inserido nas dinâmicas da comunidade de expatriados, expõe continuidades do neocolonialismo e das relações de poder no cotidiano contemporâneo.
A narrativa é atravessada por imagens da Guiné‑Bissau e do deserto da Mauritânia, captadas pelo fotógrafo brasileiro Ivo Lopes Araújo, cuja câmera confere densidade sensorial e amplitude visual ao percurso dos personagens.
Com duração de três horas e meia, o longa chamou atenção desde a estreia por sua ambição formal e narrativa. “Na verdade, é um filme que te arrebata”, observa, destacando a força da experiência proposta ao espectador. Para ela, apesar da extensão, “essas três horas e meia passam totalmente fluidas”, acompanhando a trajetória dos personagens e suas transformações ao longo do percurso.
Produzir entre países, culturas e modos de fazer
Ao longo da entrevista, Tatiana Leite retoma um tema central da sua trajetória: o trabalho com coproduções internacionais. Presente em projetos que atravessam a América Latina, a Europa, a África e a Ásia, ela define esse processo como uma combinação constante de negociação, escuta e organização. “É tão desafiador quanto genial”, resume, ao falar das exigências legais, culturais e criativas que envolvem cada...
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Brasilidade em alta: entenda o que o neuromarketing revela sobre o apelo cultural do Brasil
5/8/2026
Ferramentas de neuromarketing, cada vez mais utilizadas por empresas ao redor do mundo, ajudam a compreender o que motiva decisões de compra – muitas vezes, antes mesmo que as pessoas se deem conta disso. A análise é da pesquisadora brasileira Marina Travassos, especialista em comportamento e tomada de decisão. Em entrevista à RFI, ela explica por que o Brasil voltou ao centro das atenções e como a chamada brasilidade se transforma em um poderoso motor de desejo.
Maria Paula Carvalho, da RFI
Baseada em Paris e atuando em projetos na Europa e nas Américas, Marina construiu uma trajetória que passou pelo marketing e pelo cinema até chegar à aplicação de ferramentas de neuromarketing, um campo ainda pouco conhecido fora dos meios especializados. “É uma área um pouco fantasma, que fica por trás das inovações, antes da comunicação, antes mesmo de se criar uma publicidade ou um produto”, explica.
O neuromarketing busca compreender como fatores conscientes e inconscientes influenciam decisões, combinando conhecimentos de neurociência, antropologia e metodologias quantitativas de pesquisa. O objetivo, diz a pesquisadora, é ajudar marcas e empresas a ajustarem produtos, mensagens e experiências. “Essa é uma área que procura entender o comportamento das pessoas e o consumo para ajudar empresas a direcionarem melhor suas estratégias.”
O trabalho é voltado majoritariamente para o universo corporativo, mas Marina também participa de estudos que buscam ampliar o conhecimento do público em geral sobre o tema. Para ela, entender o processo decisório exige olhar além do indivíduo. “O comportamento é influenciado por muitas coisas: o ambiente onde a pessoa vive, a cultura, a forma como ela aprendeu determinado assunto. É uma área que mistura muita coisa”, afirma.
Brasilidade: uma tendência
Nesse processo, a observação de padrões é central. Ao conversar com diferentes públicos, certas respostas tendem a se repetir, o que pode indicar tendências emergentes. “Quando você começa a ouvir a mesma resposta várias vezes, percebe que há algo ali que precisa ser entendido”, diz.
Um exemplo recente chamou a atenção da pesquisadora: a crescente presença do Brasil no consumo simbólico e cultural. Sem partir inicialmente de um estudo formal, Marina percebeu sinais recorrentes ao viajar pelo país e conversar com amigos estrangeiros. “Passei pelo aeroporto de Guarulhos e fiquei impressionada com a quantidade de souvenirs brasileiros, perfumes de marcas nacionais. Antes, era um espaço dominado por marcas internacionais”, relata.
O fenômeno também se manifesta no entretenimento. Para Marina, a presença recente do Brasil em grandes premiações internacionais como o Oscar e a circulação de memes brasileiros no exterior fazem parte de um movimento mais amplo. “Há um deslocamento do eixo tradicional Europa–Estados Unidos para expressões culturais mais periféricas, como o K‑pop ou a latinidade levada ao mundo por artistas como Bad Bunny”, observa.
Na análise micro, ligada à neurociência, a pesquisadora aponta um elemento-chave da atratividade brasileira: a combinação entre o familiar e o inesperado. “Tudo que é familiar é fácil para o cérebro, porque não gasta energia. Mas o inesperado chama a atenção, ativa um sistema de alerta”, explica. Para ela, o Brasil reúne essas duas dimensões graças à sua história de misturas culturais.
Marina cita a pizza brasileira como exemplo dessa lógica. “A gente pega uma referência de fora e mistura com elementos locais, como a borda recheada de catupiry. Não existe na Itália, mas é a pizza brasileira. Eu chamo isso de inovação à la brasileira.”
Como toda tendência, ela acredita que o movimento tem um ciclo. “Toda tendência tem um tempo para acabar. Acho que ainda estamos no pico e espero que dure mais alguns anos”, diz.
Do ponto de vista do consumidor, a pesquisadora defende mais atenção ao próprio estado emocional antes de uma compra. “Vale se perguntar: como eu estou agora? Irritado, carente, feliz? Será que essa compra...
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Ex‑atleta brasileira transforma pesquisa esportiva em livro sobre ciclo menstrual e performance
5/7/2026
Sintomas considerados comuns na vida das mulheres, como cólicas, fadiga, alterações de humor e ciclos irregulares, ganharam um novo olhar no livro "Votre cycle menstruel mérite d’être écouté" (Seu ciclo menstrual merece ser ouvido, em português), lançado pela ex-ginasta e pesquisadora brasileira Juliana Antero, especialista em Saúde Pública e Ciências do Esporte.
A obra questiona a naturalização do sofrimento feminino durante o ciclo menstrual, inclusive no esporte de alto rendimento, e mostra como a escuta do corpo pode melhorar a saúde e o desempenho das mulheres, tanto no esporte quanto na vida cotidiana. Por meio de suas pesquisas no Instituto Nacional Francês do Esporte, Especialização e Desempenho (Insep), Juliana Antero usa a diversidade das experiências femininas para propor uma abordagem que une ciência e auto-observação.
Cada capítulo é estruturado a partir da história de uma mulher e dos sinais emitidos pelo corpo ao longo do ciclo. “Isso permite interpretar e viver cada fase de forma mais leve, contribuindo para a saúde, o bem-estar e o desempenho esportivo”, explica.
“Tudo o que eu coloquei no livro é o que eu gostaria de ter tido de conhecimento durante a minha carreira de atleta, mas também na minha vida do dia a dia”, afirma Juliana em entrevista à RFI.
Ex-ginasta de alto rendimento, ela conhece de perto um universo esportivo que, por muito tempo, ignorou os sinais do corpo feminino. “É um conhecimento essencial para todas as mulheres saberem interpretar os sinais do ciclo menstrual”, explica.
As recomendações propostas pela autora são baseadas em evidências científicas. São ajustes possíveis no estilo de vida, como mudanças no tipo, na intensidade e no momento da atividade física, além de adaptações na alimentação, no sono e na gestão do estresse.
“Por exemplo, para aquela dorzinha chata na menstruação, é recomendado fazer exercícios que contribuem para diminuir as dores. Também há ajustes na alimentação para aliviar sintomas como a vontade de comer tudo no final do ciclo, além de dicas para melhorar o sono e gerenciar o estresse, que são obstáculos para um ciclo equilibrado que garanta a ovulação”, detalha.
Observação das atletas nos Jogos Paris 2024
À frente do programa Empow'her, no Insep, a pesquisadora acompanha estudos sobre ciclo menstrual e performance e trabalhou diretamente com atletas francesas durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris 2024 e nos Jogos de Inverno Milão-Cortina 2026. A experiência de campo foi fundamental para a elaboração do livro, afirma.
O olhar crítico de Juliana também vem de sua própria trajetória como atleta, quando faltou-lhe informação sobre o ciclo menstrual. A cientista acredita que os dados que possui hoje “teriam feito muita diferença em sua carreira como atleta”:
“Quando eu era atleta e não menstruava, o que é relativamente comum no esporte de alto desempenho, a gente achava que era normal. Só que isso tem uma repercussão muito séria na saúde da mulher e no desempenho esportivo. É mais difícil construir músculos quando a gente não está menstruando, por exemplo”, relata. Ela conta que, no seu caso, a produção hormonal insuficiente acabou provocando até uma fratura.
Segundo Juliana Antero, o problema poderia ter sido evitado apenas pela observação atenta do ciclo – no seu caso, muito longos ou ausentes. A pesquisadora conta que o tema era tabu em sua época de atleta profissional e ela não tinha percepção científica atual de que o ciclo funciona como um sinal vital da saúde da mulher: “Eu adoraria ter tido esse conhecimento quando era ginasta”.
Conhecimento e empoderamento
Apesar de avanços recentes, a pesquisadora aponta que a ciência ainda olha pouco para os corpos femininos. “Um estudo de 2022 mostrou que apenas 10% das pesquisas científicas são exclusivamente sobre mulheres, enquanto 70% são focadas apenas em homens. As hipóteses científicas continuam muito baseadas na fisiologia masculina”, descreve.
Para Juliana Antero, escutar o ciclo...
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Psicanalista Liz Feré analisa como estereótipos moldam poder, linguagem e silenciamentos no Brasil
5/6/2026
Como nascem os estereótipos que moldam a forma como vemos o outro e a nós mesmos? No Brasil, país marcado por heranças coloniais e profundas desigualdades sociais, esses rótulos estruturam relações de poder e produzem silenciamentos. É a partir desse ponto que a professora de Ciências da Comunicação Liz Feré recorre à psicanálise e à análise do discurso para investigar como esses mecanismos operam no cotidiano e por que colocá-los em questão pode abrir caminhos mais saudáveis de convivência na sociedade brasileira.
O livro “Estereótipos em cena” (Editora Pedro & João), da pesquisadora franco-brasileira, chega agora à sua segunda edição, revista e ampliada. A obra resulta de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Paris 8, onde Feré leciona, e de um pós‑doutorado realizado na Universidade Federal Fluminense. Nesse trabalho, a autora articula linguagem e psicanálise para analisar como os estereótipos se formam, se cristalizam e atravessam as relações sociais, especialmente no contexto brasileiro.
Para Liz Feré, o próprio sentido da palavra ajuda a compreender o problema. “Stereos vem do grego ‘rígido’, ‘sólido’, e tipo vem então desse traço. A gente poderia dizer que o estereótipo é um traço rígido de alguma coisa”, explica. Com o tempo, o termo passou a designar formas fixas de ver o mundo, os fenômenos e as pessoas. “São representações cristalizadas. A questão do estereótipo é um olhar fixo sobre alguma coisa”, resume.
Esses olhares, segundo a pesquisadora, aparecem constantemente na vida cotidiana, sobretudo na linguagem. “Quando a gente diz ‘o Brasil é o país do futebol’, independentemente de ser verdadeiro ou não, a gente fortalece apenas um traço de uma cultura complexa”, exemplifica.
Estereótipo como sintoma social
No livro, Feré propõe pensar os estereótipos como um sintoma narcísico das relações sociais brasileiras, uma noção inspirada na psicanálise, mas deslocada do campo clínico para o social.
“Eu tento resgatar a palavra sintoma da clínica e colocá‑la em um campo mais filosófico, como um mal‑estar disseminado na sociedade em relação à ideia que fazemos de outros grupos”, afirma.
Esse funcionamento, explica a autora, contribui para manter coesões rígidas e relações de poder. “Algumas formações discursivas, como os implícitos e os silenciamentos, fazem com que grupos fiquem delimitados em certas posições na sociedade”, observa.
Ao reunir análise do discurso e psicanálise, Liz Feré busca ir além da interpretação consciente dos discursos.
“As duas disciplinas têm um objeto comum: a linguagem. Não se trata só da construção de sentido, mas da possibilidade de uma leitura inconsciente desses discursos fixos, que criam lugares e produzem silenciamentos”, aponta. Para a pesquisadora, é na linguagem que se afirmam, ou se negam, reconhecimento e respeito.
O que os estereótipos dizem sobre nós
Em sociedades hierarquizadas, como a brasileira ou a francesa, os estereótipos também funcionam como mecanismos de defesa identitária. “Eles ajudam a proteger uma imagem de grupo e a ocultar conteúdos que não são socialmente aceitos”, diz Feré, destacando como isso se manifesta de forma evidente nas discussões sobre racismo no Brasil.
“Parece que ser chamado de racista é mais grave do que cometer o ato de racismo. A pessoa diz ‘não sou racista’, mas o conteúdo não é elaborado e reaparece nos atos falhos, no ‘não foi o que eu quis dizer’”.
Para a pesquisadora, esses lapsos – que Lacan descreve como atos bem‑sucedidos – revelam conteúdos ainda não trabalhados simbolicamente. “O contato com o outro pode produzir deslocamentos e permitir a construção de outra relação com a diversidade”, afirma.
Falar a partir da branquitude
Feré explicita ainda o lugar de onde escreve: o de uma mulher lida como branca no Brasil. Para ela, assumir essa posição é uma escolha ética e política. “A pessoa branca se coloca como universal, e os demais são o outro. Colocar‑me dentro da branquitude é movimentar esse lugar e colocá‑lo em jogo”,...
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Acordo UE‑Mercosul: desafio é transformar oportunidades em negócios, diz Tatiana Prazeres
4/30/2026
Após 25 anos de negociações, começa a valer neste 1° de maio o Acordo Comercial entre Mercosul e União Europeia, o maior já firmado tanto pelo bloco sul‑americano quanto pelo Brasil. O pacto envolve 31 países, com um Produto Interno Bruto (PIB) combinado de US$ 22 trilhões e um mercado potencial de mais de 720 milhões de consumidores.
A partir da entrada em vigor do tratado, nesta sexta-feira, mais de 10 mil produtos deixam de pagar tarifas de importação ou ganham vantagens, de ambos os lados. Segundo a secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Tatiana Prazeres, o acordo começa a produzir efeitos desde o primeiro dia de aplicação provisória. “O efeito imediato do acordo é a eliminação de imposto de importação do lado do Mercosul para um grupo de produtos e a eliminação do imposto de importação na UE para um universo maior de produtos que são originários do Mercosul”, explicou.
Para o consumidor final, o acordo não altera as regras de importação de pequenos pacotes. “O regime da importação por pequenos pacotes não se altera com o acordo do Mercosul‑UE”, esclareceu Prazeres.
Além da redução tarifária imediata, Prazeres destaca que outros dispositivos entram em funcionamento simultaneamente, criando uma base mais ampla de integração. “Uma série de outros dispositivos passam a vigorar, fortalecendo o relacionamento entre as duas regiões, promovendo investimentos, comércio, cooperação, integração”, afirmou. A Comissão Europeia também comemora este marco.
Sistemas preparados para o novo fluxo
Para garantir a aplicação efetiva do acordo, Brasil e União Europeia avançaram na adaptação dos sistemas aduaneiros. Segundo a secretária, embora a redução do imposto de importação seja o aspecto mais visível, não é o único. Há também ajustes técnicos para possibilitar o uso de cotas negociadas.
Essas medidas buscam assegurar que empresas do Mercosul consigam acessar, de fato, as vantagens previstas. “Outras medidas estão sendo adaptadas, como por exemplo, medidas para implementar cotas, ou seja, como garantir que o importador brasileiro ou de um sócio do Mercosul possa de fato usufruir do benefício da cota”, explicou.
Apoio setorial e proteção aos segmentos sensíveis
No Brasil, o acordo conta com amplo apoio de setores estratégicos da economia. A secretária ressalta que tanto a indústria quanto o agronegócio se manifestaram favoravelmente ao pacto, incluindo entidades representativas como a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Há respaldo também de associações de diferentes ramos, como calçados, móveis e produtos químicos.
Para Prazeres, esse apoio é resultado dos cuidados adotados ao longo das negociações. “O governo brasileiro tomou uma série de cuidados para levar em conta as sensibilidades da indústria brasileira, do agro‑brasileiro, de maneira que essa abertura, essa exposição à concorrência europeia vai ser calibrada, vai se dar ao longo do tempo”, afirmou.
O acordo prevê instrumentos de proteção para setores mais vulneráveis. “Há mecanismos de salvaguarda para responder algumas dificuldades que os setores eventualmente venham a ter”, destaca Tatiana Prazeres, ressaltando que o objetivo é permitir uma adaptação gradual à concorrência. Ainda assim, a avaliação do governo é amplamente positiva quanto aos efeitos do tratado.
Produtividade, consumo e inserção internacional
“Estamos convencidos de que é um acordo altamente favorável ao Brasil […] que vai contribuir para obter a inserção externa do país, o aumento da produtividade no Brasil”, declarou a secretária. O acesso a tecnologias e insumos mais baratos é apontado como um dos ganhos centrais.
O consumidor também tende a ser beneficiado, com maior oferta de produtos a preços mais competitivos. Ao mesmo tempo, o desenho do tratado levou em consideração setores que precisarão se adaptar a um cenário de concorrência ampliada. “O acordo foi planejado de maneira a que se levassem em conta setores que...
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Escritora indígena lança versão em francês de livro que denuncia processo colonial em verso e prosa
4/29/2026
A escritora, pesquisadora e curadora de literatura indígena brasileira e arte Trudruá Dorrico, pertencente ao povo Macuxi, lançou na França uma versão de seu livro "Tempo de Retomada" traduzido como "Le Temps de la Reconquête". A obra, que mistura prosa, poesia e manifesto político, nasceu de uma indignação da autora ao ler descrições exóticas e preconceituosas sobre seu povo em livros acadêmicos, onde eram retratados como "não confiáveis".
Luiza Ramos, da RFI em Paris
A inspiração para escrever o livro veio através de pesquisas sobre o povo Macuxi. Trudruá conta que se deparou com representações depreciativas, nas quais os indígenas eram descritos com uma linguagem exótica que ela não se identificava. "Aquilo tudo me indignou bastante. E aí eu comecei a escrever 'Tempo de Retomada', que também nasce a partir de uma fala de uma parenta Guarani Kaiowá [...] quando ela diz assim com muita propriedade: 'como você se atreve', diante de toda a expropriação territorial", explica a autora.
"O 'Tempo de Retomada' foi feito a partir de um estudo de livros que eu estava lendo sobre o povo Macuxi. Eu tenho uma característica que eu não sei responder na ponta da língua, eu respondo escrevendo através de poemas, ensaios ou mesmo aforismos, como uma forma de resposta a todo esse material que eu estava lendo sobre a descrição do meu povo", diz.
O conceito central da obra é a "retomada", termo que, segundo Trudruá, vai além da recuperação legal de terras expropriadas. Para a autora, a retomada é também um processo de reafirmação identitária diante de um Estado que, historicamente, tentou definir quem era ou não indígena. Ela explica que o que a antropologia denomina "etnogênese", os povos indígenas chamam de retomada: o ressurgimento e a afirmação de sua existência independente de classificações externas.
Identidade Indígena e o direito à cidade
Para Trudruá, que habita na França há cerca de nove meses e já teve uma experiência de residência artística em Paris em 2023, os indígenas têm o direito a viver a cidade sem perder a identificação inerente à sua origem. "Quando eu digo a minha retomada indígena, ela passa da floresta, da Amazônia pela cidade e qualquer outra capital do mundo que eu queira habitar, isso não vai me tirar a minha identidade", pontua.
"Eu cresci sem essas referências, sem ler livros que me ensinassem sobre isso. Então, eu gostaria de ser uma referência para a minha geração e para os jovens terem o que ler sobre ser indígena na cidade e que isso não vai lhe tirar o pertencimento", afirma Trudruá.
"Um exemplo muito claro e análogo é que você não deixa de ser brasileiro porque você mora em Paris ou porque você mora na China ou porque você aprende uma língua ou uma cultura do outro, a sua identidade permanece intacta. Por que a identidade indígena seria diferente? Então eu vou continuar sendo Macuxi. A ideia do livro é pensar que a minha subjetividade é primeiro Macuxi, independente dos trânsitos que eu faço, de comunidade para aldeia, de comunidade para a cidade, de cidade para uma metrópole", exemplifica a pesquisadora.
Desafios da tradução para o francês
A autora, que já tem novos projetos para traduzir seu livro para o inglês, evidencia os desafios de adaptar seu livro para outras línguas. Inclusive, Trudruá revela que já realizou a tradução de algumas de suas obras para o Macuxi com o apoio de sua mãe, fluente no dialeto indígena. No caso do francês, idioma que ela estuda há alguns anos, ela sentiu que alguns termos precisavam de termos análogos ou de explicações em notas de rodapé, que aparecem no final da edição francesa.
"Durante a tradução, eu negociei muito com a Paula [Anacaona, tradutora da edição], porque os sentidos que têm na língua portuguesa não tinham na língua francesa, como o conceito de 'pardo'. Então nós negociamos um termo análogo. [...] Na tradução, a gente percebeu que o movimento indígena francês entende que o termo indigène e tribu, como no Brasil 'índio' e 'tribo', são termos que...
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”Carnaval é política”, diz diretor de documentário sobre fundadora da Lavagem da Sapucaí
4/27/2026
O documentário “Oní Sáà Wúre – Lavagem da Sapucaí”, dirigido por Saullo Farias Vasconcellos, acompanha a trajetória de Maria Moura, idealizadora da Lavagem do Sambódromo do Rio de Janeiro, em 2011. O filme foi lançado no Festival do Cinema Brasileiro de Paris, no início de abril, e fará sua estreia no Brasil em outubro.
“O meu caminhar, durante todos esses anos foi sempre rua e terreiro”: diz a ekedi Maria Moura, 95 anos, nos primeiros minutos do documentário de Saullo Farias Vasconcellos. Ela, que é uma das maiores personalidades do candomblé do Rio, célebre militante do Movimento Negro, feminista e advogada, tem ares de um personagem fictício de tão cativante. Mas diante das câmeras do cineasta cearense revela um perfil verdadeiro de lutas e conquistas, entre elas, a de ter criado a Lavagem da Sapucaí, evento que chama de “o Carnaval Popular do Rio”.
Longe do glamour dos desfiles televisionados e das celebridades, o evento vem sendo realizado há 15 anos, antes do último ensaio técnico das escolas de samba do Grupo Especial do Rio. O sucesso foi tamanho que a tradição se consolidou como um grande momento de celebração pública e coletiva, tornando-se um marco oficial do calendário pré-carnavalesco.
Em entrevista à RFI, Saullo conta que conheceu Maria Moura em 2012, no Centro Cultural Cartola, na Mangueira, onde dentro de sua função de “griô” (mestre), ela participava de um programa de contação de histórias para crianças. “Quando eu a encontrei, eu fiquei muito encantado”, afirma o cineasta, ressaltando o vasto conhecimento que a ekedi tem do samba, do carnaval e do candomblé. “Ela é uma referência, uma pessoa empoderadíssima, eu precisava registrar essa mulher que tem muita coisa para contar e que a gente não conhece. Eu achava que o Brasil precisava saber o que ela passou e conhecer a vida dela”, diz.
Na época, Maria Moura estava iniciando o projeto da lavagem do sambódromo, e convidou Saullo para conhecer o evento. “Ali eu já vi que ela tinha uma potência de um personagem, porque ela contava as histórias e eu ficava encantado. Aí a gente começou a ter uma relação muito próxima, porque eu a escutava e ela via que eu tinha interesse em aprender. E hoje nós somos amigos, como se fôssemos da mesma família até”, conta.
A relação do cineasta com Maria Moura se tornou o fio condutor do documentário, que é narrado pela personagem. No filme, Saullo aparece frequentando a casa da militante e filma até os próprios diálogos com ela. “Foi uma escolha minha ter toda essa narração por ela. O filme é uma contação de história dela comigo e da nossa relação”, diz.
Além disso, o documentário também é uma forma que Saullo encontrou para propagar a denúncia do racismo e da intolerância à cultura afrobrasileira. “O Brasil ainda é um país, infelizmente, racista. Muitos terreiros são violados e destruídos. As pessoas não respeitam a diversidade religiosa”, observa.
Por isso, para o cineasta, muito mais do que um evento cultural, a lavagem promovida por Maria Moura é um ato político. “Carnaval é festa, é folia, mas carnaval é política. Quando ela leva essa tradição afrobrasileira do candomblé para um espaço institucionalizado como o sambódromo, isso é um gesto de resistência, das mulheres pretas, das mães-de-santo e do samba”, diz.
Aumento dos feminicídios no Brasil
No lançamento do documentário, no Festival do Cinema Brasileiro de Paris, realizado no início de abril no cinema Arlequin, Maria Moura fez um emocionante discurso denunciando o aumento dos feminicídios no Brasil. “Estamos todas nós, mulheres, correndo risco. É preciso alertar as autoridades”, declarou, lembrando que sua idade não é um impedimento para que ela siga na causa feminista.
“Foi muito importante, diz Saullo, lembrando a vinda de Maria Moura a Paris. “Ela, com a força de seus 95 anos, fez essa viagem, atravessou o Atlântico e, ao chegar, ela me disse: ‘meu filho, vim para cá porque eu tenho uma missão’”, relembra. “Depois que acabou a sessão [no festival], várias...
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Brasileiros no exterior têm até 6 de maio para regularizar título e votar nas eleições presidenciais
4/21/2026
Os brasileiros que vivem no exterior e desejam participar das eleições presidenciais de outubro no Brasil precisam ficar atentos: o prazo para emissão de título, transferência do domicílio eleitoral, atualização de dados cadastrais ou regularização de pendências termina no dia 6 de maio. Para esclarecer dúvidas e orientar a comunidade brasileira residente na França, o embaixador Fabio Mendes Marzano, cônsul-geral do Brasil em Paris, e o cônsul adjunto Murilo Vieira Komniski falaram à RFI sobre os procedimentos. O segredo é não deixar para a última hora.
Maria Paula Carvalho, da RFI
O primeiro turno das eleições está marcado para 4 de outubro, e um eventual segundo turno acontece no dia 26 de outubro. Embora o pleito seja de eleições gerais – com escolha de governadores, deputados e senadores – , no exterior o voto é exclusivamente para presidente e vice-presidente da República. Ainda assim, estar em dia com a Justiça Eleitoral é fundamental.
Segundo o embaixador Fabio Marzano, o prazo de 6 de maio (até as 23h59 pelo horário de Brasília) é único e vale para todos os serviços eleitorais, desde a emissão do primeiro título até a transferência para o exterior ou a regularização de pendências.
“Vale para todos os tipos de serviços. Essas solicitações têm que ser feitas diretamente na página do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). É um processo bastante simples, e nós colocamos instruções passo a passo também nas nossas mídias sociais”, explicou.
Após o envio, o pedido é analisado pela Justiça Eleitoral no Brasil, e o andamento pode ser acompanhado pelo próprio sistema. Uma vez aprovada a solicitação, o eleitor passa a ter acesso ao novo título pelo aplicativo e‑Título.
Caso haja pendências no Brasil, como ausência em votações anteriores, o sistema pode apontar erro. Nesses casos, basta quitar a situação. “A multa é pequena. O TSE disponibiliza um boleto, e o pagamento pode ser feito por banco brasileiro ou transferência. Até o dia 6 de maio, dá tempo de regularizar tudo”, reforçou o cônsul-geral.
Voto é obrigatório; irregularidade traz consequências
Diferentemente da França, o voto no Brasil é obrigatório. Quem não vota nem justifica a ausência fica em situação irregular perante a Justiça Eleitoral. “Isso afeta muitos brasileiros que procuram o consulado para renovar passaporte, porque é obrigatório apresentar a certidão de quitação eleitoral”, alertou o embaixador.
A justificativa de ausência não pode ser feita presencialmente em Paris por quem está inscrito no Brasil. Ela deve ser realizada exclusivamente pelos canais digitais do TSE – seja por quem está viajando, seja por quem mora em outra cidade da França e não consegue comparecer ao local de votação.
Os dois turnos são considerados eleições independentes: mesmo quem não votou no primeiro pode votar no segundo. A justificativa pode ser feita no dia da eleição ou até 60 dias após cada turno, inclusive pelo aplicativo e‑Título.
Imigrantes em situação irregular também podem votar
Um ponto pouco conhecido é que a situação migratória na França não interfere no direito de voto nas eleições brasileiras. “Imigrantes em situação irregular na França têm plenos direitos do ponto de vista da legislação brasileira. Se estiverem com a situação eleitoral regularizada, podem votar sem problema algum”, explicou Murilo Komniski.
O processo foi significativamente simplificado desde as eleições de 2022, ainda durante a pandemia de Covid-19. Para a regularização eleitoral, basta enviar pelo site do TSE uma selfie com documento oficial brasileiro – como RG, passaporte ou CNH – e um comprovante de residência no exterior, como conta de água, luz ou telefone.
Para os homens entre 18 e 45 anos, é necessário também estar em dia com as obrigações militares, exigência que já aparece no próprio formulário do TSE.
Cresce o número de eleitores brasileiros na França
O número de eleitores brasileiros inscritos para votar na França vem crescendo de forma significativa. Em 2022, eram pouco menos...
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Premiada na França por 'Menos que Um', Patrícia Melo foi destaque no Salão do Livro de Paris
4/20/2026
A escritora brasileira Patrícia Melo foi uma das convidadas do Salão do Livro de Paris. Ela esteve no evento para falar de "Menos que Um", seu mais recente romance traduzido para o francês. A obra denuncia a vulnerabilidade das pessoas em situação de rua em São Paulo. O romance recebeu, na França, o Prêmio Transfuge de Literatura Sul-Americana, em janeiro, logo após seu lançamento no país.
"Menos que Um" foi traduzido por Élodie Dupau e publicado pela editora Buchet Chastel com o título "Ceux qui ne sont rien". Segundo a própria Patrícia Melo, o livro é uma rapsódia da vida e dos sonhos que se cruzam, formando um caleidoscópio da miséria brasileira. Este é o 12° romance de Patrícia Melo e o 12° a ser traduzido para o francês.
Ao analisar a publicação, as críticas brasileira e francesa evocam "Os Miseráveis", de Victor Hugo, revisitados e retirados da invisibilidade à brasileira. O prêmio conquistado por "Menos que Um" foi a segunda recompensa literária de Patrícia Melo na França. Em 2024, a tradução do livro "Mulheres Empilhadas", que em francês recebeu o título "Celles qu’on tue", venceu o prêmio da revista Madame Figaro.
Patrícia Melo, que atualmente mora em Lisboa, veio a Paris participar do Salão do Livro para falar de sua literatura, que ficou muito mais engajada nos útimos anos. "Eu sempre tive certa resistência em dar uma função à literatura, mas chegou um momento em que senti que o autor precisava se politizar, se posicionar. O Brasil viveu isso. Corremos riscos muito sérios de perder uma democracia ainda muito jovem", afirma nessa entrevista à RFI.
RFI: Patrícia Melo, com esse prêmio você participou do Salão do Livro de Paris já coroada de sucesso.
Patrícia Melo: Pois é, foi uma surpresa para mim esse prêmio, fiquei muito feliz. Isso dá mais visibilidade ao livro, e eu acho muito importante esse reconhecimento que a gente ganhou para colocar a obra mais em evidência.
RFI: O que você achou da comparação entre "Menos que Um" e "Os Miseráveis", o grande romance do século XIX, de Victor Hugo?
P.M.: Victor Hugo é uma grande paixão. Ele foi uma inspiração no sentido de registrar a miséria e, ao mesmo tempo, mostrar o movimento político, a organização e a revolta. Foi inspirador. É claro que foi muito lisonjeiro para mim que as pessoas percebam essa referência. Mas não é só Victor Hugo. Tem também Jorge Amado. Outro livro que me inspirou muito foi "Capitães da Areia".
RFI: Você participou da tradução. O que achou do título em francês? "Menos que Um" virou "Ceux qui ne sont rien".
P.M.: Eu gostei muito. Achei que ele tem uma sonoridade mais poética. Faz também uma espécie de eco com o título do romance anterior. Achei muito interessante. Aqui na França, minha editora fez uma observação da qual eu não tinha me dado conta. Talvez tenha a ver com meu afastamento do Brasil, mas ela acha que esses dois últimos livros funcionam como um registro dos anos terríveis que a gente viveu recentemente, quando a direita tomou o poder no país.
RFI: Você acerta contas com o governo Bolsonaro?
P.M.: Acho que ali fica registrado o quanto foi um período pesado.
RFI: Desde o seu primeiro romance, "O Matador", você denuncia a violência brasileira. Você diria que, com o tempo, sua obra ficou mais explícita e engajada?
P.M.: Acho que sim, houve uma guinada política. Não foi uma decisão voluntária. Foi uma emoção, uma indignação, um espanto diante do que estava acontecendo, que entrou na minha literatura. Eu sempre tive certa resistência em dar uma função à literatura, mas chegou um momento em que senti que o autor precisava se politizar, se posicionar. O Brasil viveu isso. Corremos riscos muito sérios de perder uma democracia ainda muito jovem.
RFI: O fato de morar fora do Brasil facilita essa análise? Esse distanciamento ajuda?
P.M.: Acho que sim. Em termos de forma, comecei a querer compor grandes painéis, fazer grandes panorâmicas do Brasil. Isso não era um desejo consciente desde o início. A gente percebe quase no final da...
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De Cuiabá aos festivais internacionais: o cineasta Bruno Bini revela o Brasil além do eixo Rio–São Paulo
4/16/2026
Fora do eixo tradicional Rio–São Paulo, o cinema brasileiro contemporâneo vem encontrando novas vozes, territórios e narrativas. Um dos nomes que simbolizam esse movimento é o cineasta Bruno Bini, diretor, roteirista e produtor nascido em Cuiabá, com mais de 20 anos de trajetória no audiovisual. Seu mais recente longa-metragem, "Cinco Tipos de Medo", vem consolidando essa projeção ao conquistar o Festival de Cinema de Gramado, onde recebeu os principais prêmios da edição de 2025, e ao circular por importantes festivais internacionais, incluindo o 28º Festival do Cinema Brasileiro de Paris.
Maria Paula Carvalho, da RFI
Lançado comercialmente no Brasil após a consagração em Gramado, o filme marca um momento decisivo na carreira de Bini e também no reconhecimento do cinema produzido no Centro-Oeste. "Cinco Tipos de Medo" foi o primeiro longa-metragem de ficção de Mato Grosso selecionado para a competição oficial do festival gaúcho, feito que, para o diretor, já representava uma vitória antes mesmo da premiação.
“A gente já estava muito feliz de estar lá e de fazer parte desse festival, que é uma das maiores vitrines do cinema brasileiro”, afirma Bini. A sessão, segundo ele, foi marcada por uma reação rara do público: aplausos de pé por vários minutos. “Depois, com a premiação, a gente se sentiu muito honrado por finalmente estar consolidando a qualidade do cinema feito em Mato Grosso”, comemora.
Bruno Bini construiu sua carreira fora dos grandes polos de produção audiovisual. Longe de representar um obstáculo, essa origem se converteu em matéria-prima criativa. Desde seus primeiros filmes, o diretor percebeu o interesse do público por narrativas ambientadas em contextos pouco explorados pelo cinema brasileiro.
“Havia um interesse grande em histórias que se passavam em contextos pouco conhecidos do grande público”, explica. Para ele, contar histórias enraizadas no universo cuiabano e mato-grossense sempre foi um gesto natural. “Eu sou tão inserido nesse contexto que era o único jeito de contar essas histórias”, afirma. O diretor se diz surpreso de ver que a trama passada na periferia de Cuiabá, no bairro Jardim Novo Colorado, tem dialogado com espectadores de culturas e países distintos.
Um quebra-cabeça narrativo
A estrutura do filme é um dos aspectos que mais chamam atenção da crítica e do público. A narrativa se constrói a partir de cinco personagens, cujas histórias se entrelaçam de maneira fragmentada, exigindo atenção ativa do espectador. Para Bini, esse formato não é apenas uma escolha formal, mas parte essencial da proposta do filme.
“Eu considero uma forma inteligente de engajar o público”, diz. “O filme carrega essa característica de quebra-cabeça, em que pouco a pouco as informações vão sendo apresentadas.” Segundo o diretor, esse tipo de construção faz com que o espectador deixe de ser passivo. “Ele se sente parte da construção do filme.”
A fragmentação também dialoga com o perfil dos personagens, marcados dramas, contradições e intenções nem sempre explícitas. O longa acompanha cinco pessoas que têm suas vidas entrelaçadas: Murilo, jovem músico em luto; Marlene, enfermeira presa a um relacionamento abusivo; Luciana, policial movida pela vingança; e Ivan, advogado de intenções ambíguas. “São personagens que escondem uma coisa ou outra. Achei que essa não explicitação combinava com a estrutura narrativa”, explica.
O filme levou quatro Kikitos: Melhor Filme, Melhor Roteiro e Melhor Montagem, todos para Bini, além de Melhor Ator Coadjuvante para o rapper e ator Xamã, que atua ao lado de Bella Campos.
Com personagens tomados por culpa, ambivalência e escolhas difíceis, "Cinco Tipos de Medo" não evita a violência nem a tensão. Ainda assim, o diretor rejeita a ideia de um cinema puramente sombrio ou desesperançoso. Para ele, a dureza é inseparável da realidade brasileira, mas não elimina a possibilidade de afeto e redenção.
“O Brasil é um país de desigualdades, onde a população enfrenta enormes dificuldades,...
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'Precisamos Falar' coloca famílias diante de um dilema moral: proteger os filhos ou assumir a verdade
4/15/2026
Exibido no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, o longa apresentado por Emílio de Mello e Leonardo Monteiro de Barros lança um olhar incômodo sobre privilégio, impunidade e responsabilidade moral em uma sociedade polarizada.
Proteger os próprios filhos ou dizer a verdade à Justiça, custe o que custar. É a partir desse dilema ético fundamental que se constrói “Precisamos Falar”, longa-metragem brasileiro que tem percorrido festivais internacionais antes de sua estreia no Brasil, prevista apenas para o segundo semestre de 2026. Dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, o filme acompanha dois casais da elite urbana cujas certezas morais entram em colapso quando descobrem que seus filhos adolescentes participaram juntos da agressão a uma mulher em situação de rua – um ataque que resulta em morte.
Os jovens envolvidos no crime são filhos de dois irmãos. Um deles é um político em ascensão; o outro, um professor universitário em crise pessoal e profissional. A revelação da agressão fatal transforma um encontro familiar em um embate ético profundo, no qual entram em confronto não apenas visões distintas de mundo, mas também a relação entre poder, responsabilidade, impunidade e consciência moral.
Quando o poder e a família entram em conflito
“O que eu acho que é interessante no filme é que a questão não é o crime, é como a sociedade lida com o crime. Essas famílias, na verdade, são um espelho de uma sociedade”, disse à RFI o ator Emílio de Mello, um dos protagonistas do longa, que esteve em Paris ao lado do produtor Leonardo Monteiro de Barros, sócio da Conspiração Filmes.
“Não importa se o agressor é seu filho, você tem que agir conforme manda a lei, de acordo com a moral, com a ética. Eu acho que o filme discute isso de uma maneira muito boa, muito bonita”, destaca Emílio de Mello.
Ele interpreta Celso, um político em plena campanha ao governo do Rio de Janeiro, cuja ascensão nas pesquisas coincide com a revelação do violento ataque cometido por seu filho e pelo primo. “O filme é uma gangorra nesse sentido. Ele começa com ele passando à frente nas pesquisas para ganhar o governo do Rio. E o crime acontece nessa noite”, conta o ator. A partir daí, estabelece‑se um embate entre dois núcleos familiares em posições opostas: de um lado, Celso e sua mulher, no auge social e político; de outro, o irmão de Celso, professor afastado da universidade, mergulhado em uma crise existencial e lidando com a depressão.
Pai de dois filhos, o ator e diretor de teatro paulista admite que o conflito extrapola a ficção. “Só de me imaginar numa situação como essa, já me dá um certo arrepio”, confessa. Para ele, o filme toca em algo essencial.
“O futuro do nosso mundo são os nossos filhos. A maneira como a gente lida com a nossa família interfere diretamente na construção de uma nova sociedade.”
Polarização inviabiliza reflexão
Esse debate, segundo o ator, ganha ainda mais urgência em um mundo atravessado pela polarização. “A gente vive uma polarização pelo mundo inteiro. E a gente não pode falar disso. Então o cinema abre espaço para essa discussão”, afirma, citando experiências recentes vividas também fora do Brasil.
A escolha da vítima, uma mulher em situação de rua, estrangeira, acrescenta camadas decisivas ao conflito.
“É muito importante ser uma mulher. Na cadeia da importância social, ela realmente é relegada à última categoria. E acontece com esta pessoa”, diz Emílio. “Ela ainda é uma estrangeira. Quer dizer, isso tudo está nas entrelinhas do filme.”
Leonardo Barros complementa que essa alteração em relação ao livro original foi uma decisão consciente do roteiro. “A ideia de ser uma moradora de rua e uma refugiada foi uma ideia do roteirista Sérgio Goldenberg, porque no livro original isso era um pouquinho diferente”, explica. Para o produtor, essa escolha reforça a dimensão ética da narrativa e a discussão sobre impunidade.
Um dilema universal, com ecos locais
Leonardo lembra ainda que “Precisamos Falar” é uma adaptação do...
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'É gratificante demais': Alaíde Costa canta em Paris aos 90 anos
4/14/2026
Paris recebe esta semana uma artista excepcional. Aos 90 anos, Alaíde Costa, uma das grandes vozes fundadoras da bossa nova, sobe ao palco do Teatro da Aliança Francesa nesta quarta‑feira (15), em Paris, para um concerto histórico. Ela canta para o público francês e também para os brasileiros que vivem na cidade, um reencontro que acontece num momento especial, de reconhecimento amplo de sua trajetória.
“Eu estou muito feliz por estar aqui”, disse Alaíde em entrevista à RFI, com a timidez que nunca abandonou fora do palco. “E poder falar um pouquinho da minha vida”, completa, quase como quem pede licença para ocupar o centro da cena.
A vinda à capital francesa se dá também por ocasião da exibição do filme de animação “A Noite de Alaíde”, da diretora baiana Liliane Mutti, apresentado no encerramento do Festival de Cinema Brasileiro de Paris. O documentário revela uma artista que esteve presente nos primórdios da bossa nova, embora, por muito tempo, tenha ficado à margem da chamada história oficial do movimento.
Cantar em Paris acrescenta algo à sua trajetória? A resposta não vem em análise fria, mas em sentimento. “Traduzir isso em palavras é complicado”, confessa. “É um sentimento que eu não sei explicar, mas é gratificante demais. Depois de 70 anos de carreira, agora, no finalzinho da vida, vêm os convites e o reconhecimento.”
Nos anos 1950, antes de a bossa nova ter nome
Ainda nos anos 1950, quando a bossa nova começava a tomar forma, Alaíde Costa já ajudava a moldar um modo moderno de cantar no Brasil, mais contido, mais íntimo, influenciado pelo jazz e pela canção norte‑americana.
“Eu sempre quis cantar músicas que não tinham nada a ver com o que acontecia no momento”, contou à RFI. Ela ouvia Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Chet Baker e outros nomes do jazz que dialogavam diretamente com a estética que se desenhava no Rio de Janeiro.
Foi nessa época que conheceu o pianista e compositor Johnny Alf. “Eu conheci o Johnny aos 16 anos. Na minha cabeça, a música dele era feita para eu cantar.” Ainda assim, seu nome, assim como o de Alf, ficou fora do panteão consagrado da bossa nova. Uma exclusão silenciosa, marcada por preconceito racial e estético, da qual Alaíde só tomou plena consciência muitos anos depois, ao ler o livro “Chega de Saudade – A História e as Histórias da Bossa Nova”, de Ruy Castro, publicado em 1990.
“Foi ali que eu percebi por que eu e o Johnny (Alf) ficamos de fora”, diz. “Na época, eu não percebia que aquilo era preconceito. Não com o canto, nem com a voz, mas com a cor da pele. A ficha demorou a cair.”
Reconhecimento tardio e a emoção preservada
Houve tristeza. “É triste, né?” Mas não ressentimento. Alaíde seguiu cantando, gravando, resistindo. Décadas depois, a reparação começou a acontecer: o retorno aos grandes palcos, a ovação no Carnegie Hall, o reencontro com o público internacional.
“Eu agradeço muito a Deus por ter conservado a minha voz”, afirma. Em casa, ela não canta. “Não canto, não.” A voz é guardada para o momento essencial: o palco. “Quando eu termino de cantar e vêm aqueles aplausos sinceros, é muito bom. Fico muito feliz.”
Vieram também as parcerias com músicos mais jovens, em discos como “O que meus calos dizem sobre mim” e “O tempo agora quer voar”. Ao falar das colaborações com Emicida, Marcus Preto e outros, Alaíde demonstra confiança e serenidade. “Eu pensei: ele é muito inteligente. Não vai me propor nada que eu não faça.” E não propuseram. “Nada saiu fora do que eu faço.”
O projeto mais simbólico dessa fase madura é o álbum “Uma estrela para Dalva”, homenagem à cantora Dalva de Oliveira, sua grande musa desde a adolescência. “Eu pensava nesse disco há 50 anos”, revela. “E finalmente chegou a hora.” Dalva era diferente dela. “A extensão de voz dela é inigualável. A minha vozinha é assim…”, diz, com modéstia. “Mas a emoção, acho que aprendi bastante com ela.”
Em Paris, Alaíde se apresenta acompanhada do pianista Philippe Powell, filho de Baden Powell,...
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“Malês”: em filme, Antônio Pitanga leva ao mundo a revolta negra que o Brasil ocultou
4/13/2026
A exibição integral do filme “Malês” no 28º Festival de Cinema Brasileiro de Paris, diante de uma sala com 400 lugares lotados, marcou mais do que a estreia francesa do novo filme de Antônio Pitanga. Tornou visível, mais uma vez, a força de um projeto que atravessa décadas, continentes e camadas de memória. Em entrevista à RFI, o ator e diretor de 86 anos falou do levante de africanos muçulmanos escravizados ocorrido em Salvador em 1835, mas também falou de si, do Brasil e de um passado que insiste em não caber nos livros escolares.
“Malês” retoma um episódio central e ainda pouco conhecido da história brasileira: o levante dos malês, organizado por africanos muçulmanos letrados, em sua maioria falantes de árabe, sequestrados no norte e no oeste da África e escravizados na Bahia. Homens e mulheres que, nas fazendas e nos engenhos vizinhos, começaram a se reconhecer pela oralidade, pela escrita, pela fé comum e pela convicção de que era possível resistir.
A decisão de transformar esse levante em filme consolidou‑se, como contou Antônio Pitanga em Paris, com a leitura de “Rebelião escrava no Brasil”, de João José Reis, obra que lhe deu base histórica e impulso definitivo para levar “Malês” às telas.
No filme, Pitanga reconstrói esse processo de reconhecimento lento e subterrâneo. Antes do levante, há um sonho: a construção de uma mesquita na fazenda de um colonizador europeu, um espaço de oração, encontro e sustentação espiritual diante da brutalidade cotidiana da escravidão. A repressão portuguesa destrói esse projeto e, ao tentar apagar a possibilidade de união, acaba acelerando o caminho para a insurreição sangrenta. O levante de 1835, o maior do século 19 no Brasil, nasce dessa fratura.
Pitanga insiste: a história dos malês não é “história do negro”, mas história do Brasil. E justamente por isso foi silenciada. “Ela não está no ensino fundamental, não está nas universidades, não está na formação do brasileiro”, diz. Na Bahia, primeiro grande entreposto de escravizados do país, ao lado de Pernambuco, essa memória sempre circulou pela oralidade. E é dessa circulação popular que o diretor parte.
“Quando chego a entender que é hora de fazer 'Malês', ele não caiu de repente, de paraquedas. É uma infância, é uma vivência, é uma história que acontece na Bahia, no Brasil – e a Bahia se lembra de tantas histórias que o Brasil não conhece, já que foi a primeira capital do país.”
Cinema e resistência
Quando afirma que o projeto levou 29 anos para se concretizar, Pitanga não fala apenas de dificuldades de produção. Ele fala de uma constante histórica do cinema brasileiro: a inexistência de uma política de Estado para a cultura. “Sai governo, entra governo, e seguimos sempre correndo de pires na mão.” Desde “Bahia de Todos os Santos”, de Trigueirinho Neto, passando por “Barravento”, de Glauber Rocha, sua trajetória se confunde com a formação do Cinema Novo, um cinema que pensava o país a partir de suas fraturas sociais. “Malês” é herdeiro direto dessa tradição.
Mas o filme se ancora ainda mais fundo. Ao falar do século 19, Pitanga traz o século 21 para o centro da discussão. Para ele, o levante dos malês permite revisitar não apenas a escravidão, mas também a independência, a abolição, a República, a industrialização. O ator questiona, inclusive, a narrativa oficial da Independência.
“7 de setembro foi um acordo. Independência de verdade aconteceu em 2 de julho de 1823, quando os portugueses são expulsos da Bahia.”
Esse deslocamento de perspectiva explica por que “Malês” tem encontrado forte ressonância fora do Brasil. O filme já foi apresentado para debate nas universidades americanas de Princeton, Universidade da Pensilvânia e Harvard, além de ter sido exibido em uma sessão na Columbia University, durante um festival da diáspora africana. No exterior, sobretudo, ele quebra uma leitura simplificada segundo a qual apenas o Haiti teria produzido uma revolução negra organizada nas Américas.
Colonialismo e pertencimento
Na...
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'Rei da Noite’ traz mito carioca de Ricardo Amaral a Paris em vaudeville sobre poder e espetáculo
4/9/2026
Exibido no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, Rei da Noite chega à capital francesa como um dos destaques da programação. O filme revisita a trajetória de Ricardo Amaral, figura central da noite carioca e internacional, transformando sua história em um retrato de época entre memória e invenção. Dirigido por Pedro Dumans, Lucas Weglinski e Cassu, o documentário atravessa décadas em que o empresário ajudou a moldar o Rio de Janeiro e projetou sua vida noturna para cidades como Paris e Nova York.
Exibido com destaque no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, Rei da Noite chega à capital francesa como um retrato da cultura noturna brasileira em diálogo direto com o circuito internacional que marcou a trajetória de Ricardo Amaral. O documentário transforma a história de vida da figura central da noite carioca entre os anos 1970 e 1990 em um mosaico de memória, excesso e invenção.
“Você pega a história da vida de um homem como o Ricardo, que produziu coisas gigantescas durante muitos anos. Ele não parou de produzir”, diz o diretor Pedro Dumans.
A exibição em Paris reforça o próprio eixo geográfico da narrativa, que atravessa Rio de Janeiro, Nova York e a capital francesa — cidades onde Amaral construiu uma rede de sociabilidade e negócios ligados à vida noturna. Para Dumans, esse movimento constante define o personagem: “Ele estava sempre criando coisas novas e de vanguarda”. O filme também já passou pelo Festival do Rio e inicia sua circulação internacional antes do lançamento comercial previsto para 2026.
Mais do que reconstituir uma biografia, o longa organiza a trajetória de Amaral a partir do princípio de excesso criativo. O empresário, responsável por mais de cem empreendimentos, foi movido pela reinvenção constante. “O grande tesão dele, ele mesmo diz, era criar, criar o tempo inteiro”, afirma o diretor. Boates, restaurantes, academias e casas de espetáculo aparecem como etapas de um impulso contínuo de experimentação urbana e cultural.
De bebê Johnson a rei da noite carioca
Se a noite de Ricardo Amaral foi feita de excessos, circulação e invenção, sua biografia pessoal parece operar no mesmo registro de fabulação contínua — como se a realidade, no seu entorno, também obedecesse a uma lógica de espetáculo permanente. Ainda adolescente, ele já aparecia em zonas de destaque improváveis: “sucesso desde bebê quando ganhou o concurso de bebê Johnson”, recorda o material de divulgação, como se a ideia de notoriedade tivesse sido naturalizada desde o início.
Esse volume de histórias, no entanto, impôs um desafio central à construção do filme. “Dizer para ele que não cabia tudo foi muito doloroso durante o processo”, admite Dumans, indicando que cada exclusão poderia representar uma pequena violência contra a própria lógica do personagem. A solução veio de um processo de seleção progressiva, em que narrativas recorrentes foram ganhando centralidade.
“As histórias mais marcantes são as que acabam entrando no documentário”, explica. O resultado, segundo ele, não é arbitrário, mas quase orgânico: um filtro de memória coletiva.
A estrutura do filme se aproxima de um desfile narrativo, em que episódios reais e anedóticos se acumulam como num carnaval. “Ele era um criador de coisas, de ideias”, resume Dumans.
Ao mesmo tempo, Rei da Noite não se limita à celebração. O filme tensiona a própria imagem pública de seu protagonista, conhecido por seu domínio narrativo e carisma. “Ele é um dos melhores contadores de história que eu conheço”, diz o diretor. Justamente por isso, a estratégia foi interferir nesse domínio. “Eu queria tirar ele da zona de conforto, provocar, para ver um lado mais humano”.
Entre documento e provocação
Essa intervenção se materializa na linguagem do filme, que rompe com o documentário tradicional e incorpora uma camada performática. Inspirado pelo universo circense e pelo cinema de Federico Fellini, o projeto cria um dispositivo de provocação em cena. “A gente criou um provocador que entra em cena e...
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Trinta anos depois, Fernanda Abreu revisita Da Lata no Festival de Cinema Brasileiro de Paris
4/8/2026
Fernanda Abreu apresenta esta semana na capital francesa o documentário “Da Lata – 30 anos”, exibido no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, em um retorno carregado de simbolismo. É o reencontro com a cidade que, ainda em 1995, soube reconhecer a modernidade do seu trabalho e acolheu uma artista que transformava música, corpo e cidade em linguagem contemporânea, muito antes do Brasil urbano ganhar lugar no imaginário global.
Lançado no Brasil em 1995, o álbum Da Lata chegou à França pelas mãos do selo Totem Records, então voltado às músicas do mundo, e encontra uma recepção que surpreende Fernanda Abreu. Sem grandes expectativas em relação ao impacto do disco na Europa, a artista se viu imersa em uma intensa agenda de entrevistas – entre elas, uma passagem marcante pela RFI. Foi naquele contexto que uma das primeiras conversas com a imprensa francesa, com a jornalista Véronique Mortaigne, do Le Monde, cristalizou o impacto visual e simbólico do projeto.
O figurino com frigideiras, imagem central do álbum Da Lata e dos shows de Fernanda Abreu, foi lido como um gesto radical de afirmação feminina. Uma interpretação que projetava sobre o Brasil um avanço que a artista ainda não sabia existir, mas que já revelava a força estética e política do disco. O corpo feminino ocupava o palco com brilho, deslocava objetos de cozinha, latas e outros adereços metálicos do cotidiano doméstico para a cena e transformava a modernidade brasileira em linguagem artística.
O entusiasmo francês se traduziu em vendas, entrevistas, presença nas grandes lojas de discos da época e, sobretudo, em shows que consolidaram sua imagem internacional. “A receptividade foi muito boa, muito boa. E depois vieram os shows, que coroaram mesmo a minha figura aqui como uma artista brasileira fazendo uma nova música moderna brasileira.”
Um disco à frente do seu tempo
Trinta anos depois, Fernanda relê Da Lata como um trabalho precursor. “Foi um disco muito importante para a música brasileira”, afirma. “Ali no Rio de Janeiro, a gente estava começando a entender o que era o funk carioca.” Ela lembra que, poucos anos depois do primeiro álbum de DJ Marlboro, o funk já aparecia como referência no disco. “Você vê hoje como o funk dominou o Brasil e está indo para o exterior, na figura de Anitta, que é uma grande artista pop brasileira.”
Ao mesmo tempo, Fernanda introduzia o samba dentro de uma linguagem pop e eletrônica que dialogava com o circuito internacional. A lata, a panela, os materiais não nobres se tornavam símbolos. “A sociedade brasileira é muito desigual. A frigideira e a lata significam essa possibilidade do brasileiro de construir a vida com criatividade mesmo diante de tanta adversidade.”
Estética, desigualdade e política cotidiana
Essa dimensão leva inevitavelmente à política, entendida pela artista não como militância partidária, mas como prática do dia a dia. “Eu sempre achei que a política é a nossa vida cotidiana”, diz. “Acordar de manhã e lutar por justiça social, por uma igualdade maior, por um país mais justo, especialmente o Brasil, que é um país muito rico e que é muito desigual.” Para Fernanda, o olhar coletivo foi aprendido desde cedo. “A sociedade é a nossa família. Eu aprendi isso em casa.”
O documentário “Da Lata – 30 anos” nasce do desejo de contextualizar esse momento histórico. Dirigido por Paulo Severo, o filme parte de um vasto acervo audiovisual registrado durante a produção do disco. “Eu filmei a gravação toda do álbum, a mixagem, o making off, a estreia no Canecão”, explica o diretor. “Esse material ficou guardado comigo.”
A ideia de transformá‑lo em documentário surgiu inicialmente como um projeto de 25 anos, interrompido pela pandemia. “Seis meses antes dos 30 anos, ela me ligou e disse: ‘Temos que fazer’”, conta Severo. A partir daí, começou o trabalho de digitalização e decupagem do material.
A posição privilegiada do diretor no estúdio permitiu um registro raro. “Eles esqueciam que eu estava lá. Eu virei um móvel.” O...
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Edição francesa de ‘Cotas Raciais’ provoca debate sobre dados, raça e desigualdade
4/7/2026
A publicação na França do livro “Cotas Raciais”, da promotora de Justiça brasileira Lívia Sant’Anna Vaz, reacende o debate sobre o uso de dados para medir desigualdades, tema que voltou ao centro da discussão pública após a inclusão da pergunta sobre a origem dos pais no recenseamento francês de 2025. Para a autora baiana, a experiência brasileira com ações afirmativas mostra que, sem diagnóstico, não há combate eficaz ao racismo. “A igualdade não é uma realidade na França”, afirma.
Lançado no Brasil pela coleção Feminismos Plurais, “Quotas Raciaux” chega ao público francês pela editora Anacaona justamente quando o país revisita os limites e a urgência de produzir dados sobre origem e discriminação. Lívia defende que reconhecer a raça como categoria analítica é indispensável para enfrentar desigualdades persistentes. “Negar o uso do nome raça não vai fazer com que o racismo desapareça”, diz a promotora.
Embora a França se recuse historicamente a produzir estatísticas étnico-raciais diretas, o reconhecimento das desigualdades existe. Relatórios sucessivos mostram que estudantes associados a origens estrangeiras são orientados de forma desproporcional para cursos técnicos; que 24% dos universitários afirmam sofrer discriminação relacionada à origem; que jovens com sobrenomes africanos precisam enviar muito mais currículos que seus pares para conseguir entrevistas de trabalho; e que jovens de bairros populares enfrentam abordagens policiais muito mais violentas do que os demais.
Para Lívia, esses dados fragmentados revelam uma verdade persistente: a igualdade republicana permanece, para muitos, apenas uma promessa. “É muito difícil curar uma doença sem diagnóstico. O racismo é uma doença, um câncer que precisa de cura”, afirma. Na visão da promotora, a recusa em medir não protege ninguém, apenas impede que políticas públicas sejam desenhadas de forma eficaz.
Brasil levou tempo para construir seu sistema de ações afirmativas
A autora insiste que a resistência ao reconhecimento da raça como categoria política não é exclusividade francesa. O Brasil também viveu um longo percurso até adotar políticas amplas de ações afirmativas. As primeiras iniciativas com recorte racial surgiram em 2001, e apenas em 2012 o país consolidou um sistema nacional de cotas por meio da Lei 12.711, após mais de uma década de debates, disputas públicas e amadurecimento institucional.
Para Lívia, essa comparação é importante porque mostra que nenhum país supera o racismo sem enfrentar tensões, contrapontos e revisões profundas de seus modelos de igualdade.
A contribuição do livro ao debate francês
É nesse contexto que “Quotas Raciaux” chega à França. O livro, baseado em sólida argumentação jurídica, histórica e moral, explica como as ações afirmativas brasileiras foram estruturadas para corrigir desigualdades persistentes e ampliar a presença de pessoas negras em espaços de poder.
Lívia enfatiza que as cotas não eliminam o mérito; ao contrário, selecionam os mais preparados dentro do grupo destinatário da política pública, corrigindo distorções produzidas por séculos de exclusão.
Para ela, a ideia de que a raça não deve ser mencionada é uma armadilha conceitual que só beneficia aqueles já privilegiados. “Raça e gênero são dois dos principais marcos de classificação social das pessoas. A raça se impõe antes mesmo que eu abra a boca”, afirma. Ignorá-la, diz, não transforma a sociedade; apenas torna o racismo ainda mais eficiente.
Responsabilidade e omissões persistentes
Lívia também aponta que a relutância francesa em discutir raça se conecta à dificuldade histórica de enfrentar o passado colonial. Ela critica a abstenção de países europeus, entre eles França e Portugal, na recente votação da ONU que classificou a escravidão como o crime mais grave já cometido contra a humanidade. Para a promotora, não se trata de um debate apenas jurídico, mas ético e moral: nenhuma sociedade supera desigualdades se continuar a evitar o reconhecimento de suas...
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Festival de cinema brasileiro celebra força, pluralidade e memória afetiva em Paris
4/6/2026
O cinema L’Arlequin, no bairro de Saint‑Germain‑des‑Prés, abre as portas para a 28ª edição do Festival de Cinema Brasileiro de Paris, que acontece de 7 a 14 de abril e exibe mais de 30 longas‑metragens, reafirmando seu papel como uma das maiores vitrine do audiovisual brasileiro na Europa. Nos estúdios da RFI, a curadora Kátia Adler detalhou a programação que, entre outros momentos marcantes, traz homenagens a Lázaro Ramos, Taís Araújo e Paulo Gustavo.
A programação de 2026 conta com oito filmes em competição, um conjunto de documentários e os lançamentos mais recentes que delineiam o panorama da produção cinematográfica atual. Sobre essa base, entram as escolhas curatoriais que permitem a Kátia Adler estabelecer diálogos, destacar trajetórias e criar focos temáticos. Foi desse movimento que nasceu a homenagem central deste ano: o casal Lázaro Ramos e Taís Araújo.
“Veio uma luz muito boa”, explica Kátia Adler. “É a primeira vez que homenageamos um casal. Para mim, eles são um exemplo de Brasil de ontem, hoje e de amanhã. São pessoas essenciais no audiovisual, na política, como exemplos para as novas gerações.”
Essa homenagem reflete não apenas o talento artístico do casal de atores, mas também a força simbólica que ambos adquiriram na transformação da representação negra na mídia brasileira. Lázaro e Taís são reconhecidos há décadas como protagonistas de uma mudança estrutural que ampliou a presença, a voz e o imaginário de artistas negros no país, contribuindo de maneira decisiva para romper estereótipos e projetar um Brasil mais plural e inclusivo.
Abertura com “Da Lata – 30 Anos” e “Querido Mundo”
A abertura do festival reúne pulsação musical e sensibilidade narrativa. O documentário “Da Lata – 30 Anos”, de Paulo Severo, será exibido com a presença da cantora Fernanda Abreu, enquanto o longa “Querido Mundo”, de Miguel Falabella, premiado no Festival de Gramado, compõe a sessão dupla.
Kátia recorda sua primeira impressão ao ver o documentário sobre Fernanda: “O filme dela é excelente; ele conta um pouco a história da música dela e da música brasileira através dela própria. Tê-la aqui conosco é uma honra para nós.”
Sobre a escolha de “Querido Mundo” para dividir a abertura, ela acrescenta: “É uma fábula e acho que as pessoas vão gostar muito, vão sair muito positivas da sala depois. É uma história de amor e, ao mesmo tempo, é um filme positivo.”
Música como eixo afetivo do festival
A música ganha espaço central na programação deste ano, com documentários dedicados a Rita Lee, Milton Nascimento, e a presença especial de Alaíde Costa, homenageada pelo longa de animação “A Noite de Alaíde”, dirigido pela cineasta baiana Liliane Mutti. O filme celebra os 90 anos da cantora, destacada pelo festival com o a única voz feminina negra da Bossa Nova.
Radicada em Paris, Liliane Mutti dirigiu “Miúcha, the Voice of Bossa Nova”, de 2022. Dois anos depois, a cineasta lançou “Madeleine à Paris”, sobre o multiartista baiano Robertinho Chaves, figura central da Lavagem da Madeleine e ícone da noite parisiense. Atualmente, ela está finalizando um documentário sobre Angela Rô Rô.
O riso como resistência: tributo a Paulo Gustavo
Pela primeira vez, o festival dedica um bloco inteiro às comédias, em homenagem a Paulo Gustavo, cuja obra permanece entre as mais populares do cinema brasileiro. Kátia lembra o impacto do humorista: “O cinema é um retrato da sociedade e Paulo Gustavo representou muito para o cinema brasileiro. (…) A frase dele, que ele sempre colocou, era ‘rir é um ato de resistência’.”
Além das estreias e homenagens, a curadora incluiu na programação a “Sessão da Tarde”, com os grandes sucessos de 2025, como “Ainda Estou Aqui”, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional, e “O Agente Secreto”, destaque das bilheterias e indicado ao Oscar. Kátia avalia esse momento dizendo:
“'Ainda Estou Aqui' com o Oscar foi muito importante. A gente está na cena internacional cada vez mais forte. 'O Agente Secreto' foi um sucesso...
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