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Artes - O legado da obra de Christo, genio da arte contemporanea mundial

RFI

Um dia por semana, em média, veja aqui os nossos destaques no mundo da cultura e das artes. Excepcionalmente, em função da actualidade, esta rubrica pode ter vários destaques.

Location:

Paris, France

Networks:

RFI

Description:

Um dia por semana, em média, veja aqui os nossos destaques no mundo da cultura e das artes. Excepcionalmente, em função da actualidade, esta rubrica pode ter vários destaques.

Language:

Portuguese


Episodes
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Filme português em competição nas curtas metragens de Cannes

5/13/2026
O Festival de cinema de Cannes decorre até dia 23 no sul de França. Em competição nas curtas metragens da selecção oficial está o filme português "Algumas coisas que acontecem ao lado de um rio". Uma obra de Daniel Soares, realizador que já tinha sido distinguido em 2024 com uma menção especial para a outra curta com "Mau por um momento". Desta feita Daniel Soares põe em cena um corpo que flutua no rio, perante a impassividade das pessoas, distraídas com os seus afazeres. O cineasta começa por se declarar supreso com o facto de ter sido seleccionado uma segunda vez para a mais prestigiosa das mostras deste certame. Para já, ficámos muito surpreendidos. Matematicamente falando, é muito complicado ter um filme seleccionado. Há dois anos acho que eram 4 700 filmes ou o quê que foram submetidos ! E os escolhidos este ano acho que são 3000 e tal e 10 escolhidos ! Então ou seja matematicamente é muito complicado e consegui-lo uma segunda vez é muito difícil. Então não estava com muita expectativa em relação a isso, voltar a ser seleccionado. Portanto, se calhar desta vez foi... A primeira vez é claro que é muito especial, mas da segunda vez já é "Espera aí ser selecionado uma vez, dá-te aquela sensação de "ok, consegui enganá-los, enganaram-se, sei lá !" E a segunda vez... pronto, se calhar há aqui qualquer coisa em que eu posso confiar mais na minha intuição quando escrevo especialmente. Porém, se teve essa sensação de ter enganado alguém, acabou por sair de lá com uma distinção. Eles acabaram por lhe enviar uma mensagem, algo contrária de alguma fé, pelo menos no seu cinema. Então, mas agora que está seleccionado uma segunda vez, já teve a curiosidade de ver com quem é que vai estar a competir aqui nesta seleção das curtas metragens da competição oficial? Sim, desta vez. Pessoalmente, eu não conheço ninguém. Da última vez eu conhecia. Tinha um amigo que tinha sido seleccionado, desta vez pessoalmente, não conheço ninguém, mas já vi o filme do realizador do Vietname, uma longa metragem de que eu gostei muito na altura. Lembro-me de ver e vai estar com uma curta. "O sonho é um caracol", não é? Exacto. "Le rêve est un escargot", na tradução francesa do título original vietnamita. Ao fim e ao cabo Cannes, agora já conhece. Já podemos fazer um rescaldo. Como foi para si? Gostou de lá ter ido? Está entusiasmado por voltar? O que é que pretende fazer nesta edição? Sim, estou entusiasmado. Gostei muito da primeira experiência. Se calhar agora, se puder, gostaria de ver mais filmes do que da última vez. Da última vez não consegui ver muitos filmes, mas isso talvez será assim uma coisa que eu tentarei fazer. É assim, há muitas reuniões também, não é que, que acontecem? Pois claro. Há todo um espectáculo que se calhar não é muito a minha cena, mas ao mesmo tempo é importante para dar visibilidade ao filme e aos próximos filmes e construir dessa forma, sei lá, um percurso que me permita continuar a fazer filmes, o que é sempre difícil. Por tudo isso. Pois é, isso é um lugar onde durante duas semanas o pessoal se encontra e celebra o cinema como em nenhum outro lugar, acaba por ser muito especial. Vamos falar do seu filme "Algumas coisas que acontecem ao lado de um rio". Se calhar, antes de entrarmos na história, no argumento, falemos um pouco do elenco. Você foi buscar, por exemplo, valores consagrados do cinema português. Penso em Teresa Madruga, que já colaborou com pessoas como Manoel de Oliveira, Miguel Gomes, que são consagrados em Cannes. E depois há valores menos conhecidos. Por exemplo, os dois rapazes que dão corpo ao grupo de imigrantes e de estafetas que vão tomar banho no rio. Como é que foi pegar neste leque heterogéneo de pessoas para filmar esta obra? Isto é um filme de elenco. E a ideia foi sempre essa. Foi misturar actores incríveis, como a Teresa, como o João Vicente e misturá-los com pessoas menos conhecidas. Para mim, estes dois estafetas não faria qualquer sentido que fossem actores...

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Livraria Portuguesa e Brasileira é e quer continuar a ser local de encontro da lusofonia em Paris

5/6/2026
O Dia Mundial da Língua Portuguesa foi celebrado em Paris pela Livraria Portuguesa e Brasileira, dedicada a livros e autores lusófonos. O dia foi assinalado com uma série de eventos desde leituras de poesia até espectáculos de rua, com a livraria a apostar agora em reunir todos os amantes da lusofonia em Paris. O Dia Mundial da Língua Portuguesa foi assinalado em Paris na terça-feira, dia de 5 de Maio, pela Livraria Portuguesa e Brasileira com espéctaculos de rua, conversas e poemas, num esforço para promover a língua e também atrair novos falantes para o Mundo lusófono. A livreira Corinne Saulneron, que dirige esta livraria, explicou à RFI a importância de assinalar este dia. "Porquê estudar português? Eu fi-lo porque namorei com um português. Então eu tive interesse em conhecer a sua cultura e acabei por entrar num outro mundo e acho que é uma riqueza. Quanto mais línguas as pessoas souberem, mais Mundo conhecem. E o português traz isso. Traz histórias histórias, histórias africanas, histórias brasileiras. E é isso que nós temos de fazer. Temos de colocar a língua em cima da mesa. A língua portuguesa tem de atrair as pessoas porque esta livraria tem 40 anos de existência o que quer dizer que as pessoas têm vontade de aprender o português e vontade de aprender sobre a cultura portuguesa. Tem de se voltar às raízes portuguesas. E então temos também nós, actores desta língua, de fazer que esta língua ressoe", explicou Corinne Saulneron. Para trazer a lusofonia até à Praça de l’Estrapade, no coração do quinto bairro da capital francesa, a Livraria Portuguesa e Brasileira contou com a de associações, como o grupo teatral brasileiro Quarto Além, a associação Herança Brasileira que divulga o português junto dos mais jovens, mas também autores, editores e outros actores da língua de Camões e de Machado de Assis em França. Uma das atracções do dia foi Camila Shwafaty, encarnando a palhaça June Piruá Abramovich, que chegou há cerca de dois anos a Paris e que alterna entre o francês e o português nos seus espéctaculos de rua, o que lhe mostra a diversidade e amplitude do domínio de diferentes línguas. "Dá para brincar muito, porque são culturas similares, mas ao mesmo tempo têm grandes diferenças. E também porque quando a gente fala mais de uma língua, o cérebro - quando você tá falando português, francês, aí vem uma pessoa que fala inglês porque Paris é muito turístico, então a coisa fica tipo você tenta falar uma língua e vai outra - dá um nó. Mas isso é óptimo para o jogo de palhaço, então funciona super bem. Tem os desafios, mas também é um desafio que para o palhaço serve muito bem, porque os palhaços trabalham com o erro, com com o perigo de errar, com essas coisas. A minha cultura está no meu corpo, as músicas. Então, assim, por mais que eu faça um espectáculo em francês, uma intervenção em francês, vai ter coisas que vão ser em português", explicou Camila Shwafaty. A Livraria Portuguesa e Brasileira tem apostado nos últimos meses numa maior presença nas redes sociais e também num programa de eventos intenso, continuando a renovar-se. Corinne Saulneron quer agora criar uma rede de falantes de português em França de forma a mapear e divulgar da melhor forma a língua portuguesa. "A nossa chegada ao Instagram foi um pedido dos nossos clientes brasileiros. Os brasileiros estavam sempre a dizer-me, mas não, não está no Instagram, não pode ser. Eu tenho muita ajuda de pessoas brasileiras com as redes sociais. Estão a fazer isso gratuitamente. Estão a fazer isso porque elas também acham que a livraria é um lugar que não só é um lugar de venda, é um lugar onde as pessoas se encontram, podem fazer coisas, juntar-se e o tempo agora é de nos juntarmos. E eu tenho também esta ideia de fazer um salão de livrarias estrangeiras em Paris. Há 38 livrarias estrangeiras com a Rachel, a minha estagiária. Já pedimos a opinião das livrarias estrangeiras, da livraria italiana, polaca e todos estão a dizer: claro que sim. Temos de fazer isso. É...

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À descoberta da artista portuguesa Rita RA em Paris

4/27/2026
Neste programa, fomos até a um atelier em Belleville, em Paris, para conhecermos Rita RA, uma artista multidisciplinar, de 34 anos, que se define como “caçadora recolectora” de materiais e de momentos. Entre instalação, vídeo, arte digital, design, fotografia, pintura, colagem e tanto mais, Rita RA vive a arte como uma forma de aproximar as pessoas e isso reflecte-se nos seus workshops, exposições e projectos associativos. Rita Rebelo de Andrade, nome artístico Rita RA, chegou a Paris em 2023 e vive e trabalha entre a capital francesa e a portuguesa. A aventura Paris-Lisboa começou com um estágio em Paris com a artista portuguesa Carolina E. Santo e com a sua associação, a "Assembler du Dehors", agora instalada num acolhedor atelier no bairro de Belleville. Depois do estágio, a artista continuou a trabalhar com Carolina E. Santo e alguns dos seus trabalhos poderão ser vistos entre 28 e 31 de Maio neste atelier, no âmbito das chamadas “portas abertas dos artistas de Belleville”. Rita RA formou-se em Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, fez Erasmus em Arte Multimédia em Ljubljana, na Eslovénia, e um mestrado em Artes Cénicas na Universidade Nova de Lisboa. Trabalhou na produção de eventos da Galeria Underdogs (fundada por um dos mais internacionais artistas portugueses contemporâneos, Alexandre Farto, aka Vhils) e na produção artística do Festival Iminente, em Lisboa, que junta música, artes visuais e cultura urbana. Também ajudou a desenvolver o Centro Cultural Brotéria e está a co-criar o projecto associativo Casa Redonda, igualmente em Lisboa (que vai ser oficialmente lançado a 21 de Maio). Para ela, a arte é uma forma de se estar na vida e reflecte-se em projectos criativos colaborativos com outros artistas e com o próprio público. Rita diz que quer "aproximar pessoas, gerar pensamento crítico e desenvolver pontes" e é isso que tem feito e promete continuar a fazer. Uma das peças que ela mais acarinha chama-se “Comunhão” e é uma obra impressa em papel hóstia e destinada a ser comida pelos visitantes. No dia da entrevista à RFI, em cima da mesa de trabalho do atelier de Belleville, estavam livros, postais e uma resma enigmática de papéis de tom pastel que têm muitas histórias para contar. Quisemos conhecer algumas dessas histórias, das criações em curso, dos projectos e ambições e foi por essas andanças que a conversa divagou. Para ouvir neste programa.

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Cabo Verde: Contagem decrescente para o Festival Kontornu na ilha de Santiago

4/20/2026
A quarta edição do Festival Kontornu - Dança e Artes Performativas vai decorrer de 11 a 16 de maio, na ilha de Santiago, em Cabo Verde. O evento abre com um espectáculo da companhia Raiz di Polon e fecha com uma “battle” de danças urbanas. Pelo meio, há um workshop dirigido pela coreógrafa cabo-verdiana Marlene Monteiro Freitas, uma das principais autoras da dança mundial contemporânea. O Festival Kontornu afirma-se como uma plataforma internacional dedicada à dança e às artes performativas e reúne artistas e profissionais da cultura de diferentes geografias. Este ano, o evento vai ter um workshop dirigido pela coreógrafa cabo-verdiana Marlene Monteiro Freitas. O Kontornu abre a 11 de Maio com Raiz di Polon, uma companhia histórica da dança contemporânea de Cabo Verde, e vai terminar com uma “battle” de danças urbanas, a 16 de Maio. Há, ainda, uma iniciativa integrada no festival que se chama KOPANO – Plataforma de Encontro e Cooperação Internacional, que junta programadores, curadores, artistas e representantes de festivais internacionais. O director do Festival Kontornu, Bruno Amarante (nome artístico Djam Neguin) falou-nos sobre a edição deste ano, novamente marcada pelo “milagre” porque se faz graças à “generosidade” dos artistas. Desta vez, o festival decorre nas vésperas das eleições legislativas e o seu director espera que o novo Governo olhe para a cultura com “políticas públicas sólidas e não só com micro-apoios”. Oiça aqui o programa.

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O abraço da nova voz de Cabo Verde, Mário Marta

4/17/2026
O cantor Mário Marta, com origens cabo-verdiana e bissau-guineense, morreu esta quinta-feira, em Portugal, no dia Mundial da Voz. Em jeito de homenagem, a RFI torna a publicar uma entrevista realizada com o artista em Outubro de 2021, em Lisboa. O cantor Mário Marta é a nova voz da música Cabo Verde. Inconfundível, faz-nos embarcar nos mais diferentes ritmos de forma tão sedutora e quente que sentimos toda a Morabeza das ilhas embaladas pelo Atlântico. O cantor, que partilha raízes com Guiné-Bissau e Cabo Verde, já está a ver os frutos da aposta em gravar temas originais. Logo com o primeiro single, Aguenta, um funaná onde Mário Marta conta com a colaboração de Lura, conquistou o reconhecimento internacional. Recentemente, nos Estados Unidos da América, Aguenta venceu os International Portuguese Music Awards na categoria Best World Music. E, enquanto aguardamos pelo lançamento do álbum, Mário Marta continua a somar reconhecimento pelo trabalho desenvolvido. Com o single Boa, o cantor está nomeado para os prémios CVMA (Cabo Verde Music Awards) nas categorias Melhor Interprete e Melhor Coladeira do Ano. Mas, se só agora é que Mário Marta assume o centro do palco ao lançar os primeiros trabalhos discográficos em nome próprio, um facto é que o menino que nasceu numa família de músicos desde criança que vive no planeta música. Por exemplo, Cesária Évora e Tito Paris são apenas dois dos nomes da música de Cabo Verde que sempre fizeram parte do quotidiano de Mário Marta e das tocatinas que aconteciam na casa da família em São Vicente. A RFI foi ao encontro de Mário Marta para conhecermos um pouco melhor a nova voz de Cabo Verde.

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França aprova lei de restituição de obras de arte: “Restituir é confessar”

4/15/2026
O Parlamento francês aprovou esta segunda-feira, 13 de Abril, por unanimidade uma nova lei que cria um mecanismo permanente para a restituição de bens culturais saqueados durante parte do período colonial, dispensando votações caso a caso. A medida é vista como uma mudança na relação da França com a sua memória imperial. O artista plástico guineense, Nu Barreto, saúda o avanço, mas lembra que “o facto de restituir não quer dizer que a reparação foi feita”. A França deu esta semana um passo simbólico e político ao aprovar por unanimidade uma nova lei sobre a restituição de bens culturais retirados das antigas colónias durante o período colonial. Depois do voto favorável no Senado, o texto segue agora para comissão mista partidária, nesta que é a última etapa antes da adopção definitiva da lei. Na prática, a legislação estabelece um mecanismo permanente que vai permitir devolver obras de arte, objectos rituais e peças patrimoniais sem precisar de aprovar uma nova lei para cada processo. Até aqui, cada restituição exigia um procedimento legislativo autónomo, tornando moroso e politicamente complexo o regresso de peças reclamadas pelos países de origem. Para o artista guineense, Nu Barreto, a decisão representa um avanço claro: “Só posso considerar positivo”, afirma. “Vai permitir que as obras sejam restituídas no seu contexto e talvez possa permitir uma certa independência aos países que sofreram este fenómeno de obras que foram tiradas, roubadas.” O artista sublinha que a devolução não se resume ao acto jurídico. Trata-se também de devolver às populações o acesso a um património que lhes pertence. “Permite que essas obras estejam na disponibilidade do povo, e que o povo possa usufruir dessa riqueza toda.” A nova lei surge num momento em que vários países europeus são pressionados a rever o legado colonial presente nos seus museus e colecções. Em causa estão milhares de peças levadas para a Europa em contextos de guerra, ocupação, pilhagem e desigualdade. Ainda assim, Nu Barreto considera que a restituição, por si só, está longe de fechar o debate histórico. “A memória exige processos muito mais profundos do que isso”, sustenta. “Não é o facto de terem devolvido aquilo que foi retirado ao continente africano que fará com que as coisas sejam repostas.” E acrescenta: “A história da colonização é uma história longa, uma história profundamente sangrenta. O facto de restituir não quer dizer que a reparação foi feita.” Na sua leitura, o essencial passa também pelo reconhecimento moral e político das violências cometidas. “Faltou o humanismo, sobretudo da parte dos colonizadores”, sublinha. “Restituir é confessar” O artista guineense espera que a decisão francesa tenha impacto além-fronteiras. “Gostaria que isto fosse uma espécie de bola de neve”, afirma. “Que os outros países também possam ter esse dinamismo, essa vontade de olhar para trás e reconhecer que efectivamente certas coisas que temos aqui não são nossas.” Para Nu Barreto, restituir é também um acto de verdade histórica. “Restituir é confessar”, resume. O artista guineense lembra que vários países africanos já deram passos relevantes neste domínio, citando Benim, Nigéria e Costa do Marfim. Refere igualmente a Guiné-Bissau, cujo património se encontra disperso por museus de vários continentes. “A Guiné também tem peças espalhadas pelo mundo. Já visitei museus onde encontrei peças da Guiné e fiquei a pensar como é que essas peças chegaram ali”, recorda. A restituição levanta questões práticas: conservação, segurança, musealização e acesso público. Nem todos os países dispõem ainda de infra-estruturas preparadas para acolher acervos devolvidos. Nu Barreto reconhece essa realidade, mas insiste que o processo deve avançar. “Há países já com passos muito mais adiantados. Sei que o Benim, por exemplo, já está a construir museus para albergar essas peças que estão a chegar aos poucos.” Apesar das dificuldades, considera que o valor simbólico supera os obstáculos...

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História inédita de português na Guerra Civil de Espanha publicada em França

4/7/2026
Alberto de Oliveira Martins foi um anónimo que se deixou levar pelos ventos da história e que, no final da sua vida, decidiu contar o que viveu com a ajuda de uma velha máquina de escrever que o filho lhe ofereceu. Alberto nasceu em Portugal durante a Primeira Guerra Mundial, viveu a chegada da ditadura, combateu o franquismo na guerra civil de Espanha, foi preso num campo de internamento em França na Segunda Guerra Mundial e esteve detido nas prisões salazaristas em Portugal. Tudo isso escreveu nas suas memórias no final dos anos 80. Quarenta anos depois, o seu filho, Joaquim, partilhou o texto com o historiador Victor Pereira que foi à procura dos rastos desta história invulgar. O resultado é um livro intitulado “Les Carnets d’Alberto. De Porto à la guerre d’Espagne” [“Os Cadernos de Alberto. Do Porto à Guerra de Espanha”] que vai ser publicado em Maio em França, pela editora Chandeigne & Lima, e sobre o qual estivemos à conversa com Victor Pereira. RFI: Do que fala o livro “Les Carnets d’Alberto. De Porto à la guerre d’Espagne” ? Victor Pereira, Autor e historiador: “Há mais de um ano, o senhor Joaquim de Oliveira Martins veio ter comigo dizendo que o pai tinha combatido durante a Guerra de Espanha e que tinha combatido na coluna Durruti, uma coluna dirigida pelo próprio Durruti, que foi um dos mais célebres anarquistas espanhóis. Disse-me que o pai dele tinha combatido lá e que no fim da vida, isto é, no fim dos anos 80, ele tinha escrito não propriamente um livro, mas umas Memórias que, depois, ele me emprestou para eu ler. É um relato fantástico de uma vida que começa em 1915 no Porto e cujas Memórias acabam em 1943,1944, quando regressa a Portugal. O que eu fiz foi convencer - e não foi muito difícil -a Anne Lima da editora Chandeigne & Lima para publicar este texto, que é inédito e há muito poucas obras sobre a participação de portugueses na Guerra de Espanha. O que eu fiz foi ir aos arquivos em Portugal, em Espanha e em França para tentar encontrar rastos da vida dele, pensando que ele tinha vivido várias aventuras pouco comuns. Encontrei documentos, nomeadamente no Arquivo da Guerra Civil de Espanha, em Salamanca, e fui encontrando várias coisas sobre ele. Muitas vezes, eram coisas que não parecem importantes, como recibos de soldados portugueses em Espanha, e fui conseguindo conferir o que ele dizia porque ele escreveu 40, 50 anos depois e a memória distorce um pouco os eventos. Então, o livro é feito das memórias dele e de uma introdução minha que é bastante longa que é uma introdução biográfica com o que eu consegui encontrar nos arquivos nos vários países para compreender o percurso pouco comum dele.” Há dois textos no mesmo livro: o texto de Alberto de Oliveira Martins, que ele escreveu como testemunho autobiográfico, e a investigação do historiador Vítor Pereira sobre este anónimo... “É isso mesmo. São dois textos. Começa com o meu, mais ou menos 200 páginas, baseado no texto dele, nos arquivos, nas memórias de pessoas que combateram na Guerra de Espanha. Ele combateu numa frente em Aragão, com milicianos que vinham de Barcelona. Li muitas coisas sobre esse combate à volta de Saragoça, onde ele esteve mais. Depois, ele tem o que aconteceu com milhares de espanhóis quando os republicanos foram perdendo a guerra e houve a Retirada, isto é, a entrada de 435.000 pessoas que atravessaram a fronteira entre a Catalunha espanhola e a francesa. Ele faz parte desse milhares de pessoas e é internado em um campo de internamento em França. Depois regressa a Portugal e é preso no Aljube. Então, eu vou também contando a história dele, a história de outras pessoas, nomeadamente portugueses, que combateram na Guerra de Espanha e também das pessoas que foram presas durante os anos 1940, 41 em Portugal, no Aljube e em Caxias. Depois, há o texto dele, que começa na infância até quando ele tem mais ou menos 30 anos.” A história de Alberto de Oliveira Martins também ilustra um ângulo morto da História? A história dos...

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Do espanto ao desejo, um livro que acompanha a dança de Marlene Monteiro Freitas

3/25/2026
Enquanto NÔT sobe ao palco em Paris, Alexandra Bolona apresenta esta quarta-feira, 25 de Março, Dança Fora de Si. A Obra Coreográfica de Marlene Monteiro Freitas na Livraria Portuguesa e Brasileira, um livro que nasce de um “espanto” inicial e de mais de uma década de encontros com a obra de Marlene Monteiro Freitas. “Não desejo explicar, mas aproximar”, diz a autora, propondo uma escrita que acompanha a dança sem a fixar e abre caminhos para ler uma criação que “transmite forças” mais do que mensagens. Há livros que chegam para explicar. Este não. Dança Fora de Si. A Obra Coreográfica de Marlene Monteiro Freitas instala-se noutro lugar: acompanha, escuta, aproxima-se. É apresentada esta quarta-feira, 25 de Março, em Paris no momento em que a nova criação de Marlene Monteiro Freitas, NÔT, sobe ao palco, como se a escrita e a dança partilhassem o mesmo tempo, cada uma no seu plano: uma no corpo, outra na linguagem. O gesto inaugural aconteceu em 2012. Alexandra Bolona recorda-o como um abalo inaugural: “Recordo-me ter visto a estreia da peça Paraíso, coleção privada, em estreia absoluta no festival Vila do Conde e ter pensado que aquilo que estava a ver em palco era tão, tão diferente daquilo que eu já tinha visto para alguém que acompanha a dança contemporânea portuguesa europeia, que me questionei: ‘O que é isto que eu estou a ver em palco? Que corpos são estes? Que polifonia? Que paisagem musical tão bizarra, que estranheza?’ Eu tinha o objectivo de escrever sobre aquela peça e demorei uma semana para escrever sobre a peça porque tive dificuldade em tentar transferir toda aquela emoção, toda aquela força e toda aquela estranheza em palavras.” Esse primeiro embate não se dissolveu com o tempo. Pelo contrário, prolongou-se, sedimentou-se, tornou-se método e necessidade. “A curiosidade ficou de tal forma impregnada no meu próprio corpo”, diz, sublinhando uma relação com a escrita que é também física: “é quase como se eu sentisse visceralmente o que estou a ver em palco”. O espanto como origem e como método O livro assume essa origem sem reservas: “Este livro nasce do espanto”, afirma Alexandra Bolona. E acrescenta imediatamente: “logo a seguir associo este espanto a outra palavra que é o desejo”. O espanto, neste contexto, não é paralisia, mas impulso. “O espanto deixa-nos num momento de estupefacção, surpresa, incompreensão, talvez num maravilhamento, mas também incita a questionar porque é este espanto, porque é esta surpresa.” A partir daí, abre-se um caminho de investigação que a autora liga a uma descoberta teórica precisa: “encontrei num livro de Agamben esta relação entre a palavra espanto e estudo, que partilham a mesma raiz etimológica, um que significa o choque, o embate perante algo que desconhecemos. E este embate levou-me a prosseguir este estudo.” A escrita nasce, assim, desse choque inicial e prolonga-o. Mas o livro não procura resolver o enigma. A própria autora recusa essa ambição: “Eu não sei se este livro vai explicar. Eu acho que ele abre caminhos de leitura, abre caminhos para nos aproximarmos à obra da Marlene.” E talvez seja essa a única forma possível de responder a uma obra que, como diz, “não deseja explicar coisas, mas mais provocar sensações, transmitir forças, intensidades. A dança consegue, nas palavras dela, transbordar às vezes mais do que as palavras.” Cinco peças, uma travessia O livro organiza-se em torno de cinco peças: Guintche, Paraíso: coleção privada, Jaguar, As Bacantes e Mal – Embriaguez Divina, mas não constrói uma narrativa linear. Cada obra é um ponto de entrada, um campo de forças. A escolha obedece a uma lógica interna ao percurso da coreógrafa: “Guintche é um solo e é o único solo que Marlene apresentou de uma forma ampla no contexto nacional e internacional. Depois segue-se Paraíso: coleção privada, a sua primeira peça de grupo. Escolhi também Jaguar, que é um dueto, As Bacantes, uma leitura coreográfica da tragédia grega de Eurípides que ela fez em 2017 e foi no...

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Gala “Nô Sta Junto”: “É um evento que une a Guiné-Bissau”

3/24/2026
A sexta edição da Gala de Homenagem “Nô Sta Junto” realiza-se no próximo dia 28 de Março, em Bissau, com o objectivo de reconhecer figuras que se têm destacado no panorama sociocultural da Guiné-Bissau. Em entrevista à RFI, o presidente da organização, Carel Baptista, sublinha a importância de valorizar os protagonistas ainda em vida. “O objectivo desta gala é reconhecer e homenagear as pessoas que têm vindo a trabalhar para o desenvolvimento sociocultural da Guiné-Bissau, reconhecer as pessoas enquanto estiverem vivas, para continuarem a dar o seu máximo”, afirmou. O processo de selecção dos nomeados combina monitorização de actividades no terreno e participação do público. Segundo o responsável, a organização acompanha “os trabalhos a partir das redes sociais” e conta com colaboradores em Bissau ligados à cultura, ao empreendedorismo e ao activismo. A isto soma-se a opinião dos seguidores: “Pedimos opiniões em cada categoria sobre quem merece ser reconhecido. Depois fazemos uma lista que passa por um processo de filtragem até chegarmos aos três finalistas.” Entre as categorias a concurso estão música, humor, artes plásticas, literatura, dança moderna, moda, impacto sociocultural, empreendedorismo, desporto, design gráfico, personalidade jovem e edificação das comunidades, além da distinção de Mérito e Honra. Sob o lema “A cultura como factor de unidade nacional”, a edição deste ano surge num contexto político conturbado. Carel Baptista considera que a iniciativa pode desempenhar um papel de aproximação: “Escolhemos este lema porque o país não está num bom momento. Queremos que as pessoas reflictam que a cultura é fundamental para a reconciliação e para a unidade.” A iniciativa, que arranca dia 28 de Março às 18h00 locais, pretende voltar a afirmar-se como um momento de celebração e reconhecimento. “É um evento que une a Guiné-Bissau”, concluiu o organizador, deixando o convite à participação de toda a comunidade.

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Katia Guerreiro: "Quero dar asas à minha criatividade, porque preciso muito dela para ser feliz"

3/18/2026
No final da semana passada, a cantora de fado Katia Guerreiro deu um concerto caritativo em Massy, na região parisiense, a favor da luta contra o cancro pediátrico. A artista que celebrou há alguns meses 25 anos de uma carreira que para muitos segue o caminho trilhado por Amália Rodrigues, falou com a RFI algumas horas antes deste concerto. Nesta conversa, a fadista evoca as suas andanças pelo mundo e algumas das suas colaborações marcantes, nomeadamente a que teve com o músico e produtor José Mário Branco, falecido em 2019, ou ainda com o escritor António Lobo Antunes que nos deixou há poucos dias. Katia Guerreiro aborda igualmente o seu olhar sobre o fado depois de 25 anos nos palcos e fala da necessidade que tem, por vezes, de cantar algo diferente, como aconteceu por exemplo no seu mais recente álbum, "Mistura", lançado em 2024. A artista evoca também a sua acção como comissária de "Ponta Delgada - capital portuguesa da Cultura 2026". Um activismo que encara como uma "retribuição" por tudo o que tem recebido dos Açores, onde cresceu. Uma conversa que é também um reencontro, passados mais de vinte anos sobre um primeiro contacto, quando então estava no começo do seu percurso no fado. RFI: No ano passado, comemoraste 25 anos de carreira. Isto passou num instante. Katia Guerreiro: Foi a correr. Nós estávamos a fazer contas. Já não nos víamos há 20 anos, não é? E de repente, olha-se para trás e. E faz-se aqui uma retrospectiva, é um momento retrospectiva e que tem de ser mesmo celebrado. Porque efectivamente, acho que tenho motivos de orgulho grandes por andar aqui há 25 anos. Tudo aquilo que eu já construí, que já dei, mas é também uma responsabilidade acrescida, porque daqui para diante terei de continuar dentro desta minha linha de coerência e de consistência naquilo que faço, porque acho que é isso que o público continua a esperar de mim. São 25 anos muito, muito felizes. E eu comecei a comemorar no dia 18 de Junho no CCB (Centro Cultural de Belém em Lisboa), porque foi essa a data que encontrámos disponível para fazer este concerto naquela sala de que eu gosto muito. Mas efectivamente, foi no dia 6 de Outubro a data oficial de comemoração. Mas continuo a prolongar isto porque me sabe muito bem. Neste ano em particular, que estou muito dedicada a uma outra causa que é a capital portuguesa da Cultura em Ponta Delgada, poder continuar a levar a palco um repertório que construí ao longo destes 25 anos. E o meu plano para este ano é cada concerto ser diferente, construir concertos diferentes cada vez que subir ao palco. E revisitar o repertório que eu deixei de cantar. Porque os repertórios vão-se renovando e vamos deixando alguns temas para trás. Mas já tinha saudades de cantar alguns e então vou sempre recuperando alguma coisa em cada concerto e construindo espectáculos diferentes, o que me dá particular gozo não ter de fazer sempre a mesma coisa. Nunca fiz, mas agora de uma forma mais consciente. RFI: Olhando para trás, como é que vês a tua evolução? O que é que talvez mudou na tua forma de encarar o fado, de encarar o canto? Katia Guerreiro: Eu acho que vou tendo uma cada vez maior maturidade na forma como canto e acho que isso se nota na minha voz. Quando vou revisitar os temas antigos, eu percebo que a minha maturidade na voz vai crescendo. Mas procuro sempre que as palavras sejam cantadas com muita verdade. Mas a minha verdade hoje não é a mesma verdade de há 20 anos atrás ou há 25 anos. Portanto, há sempre aqui camadas que se vão acrescentando de histórias de vida que vão fazendo com que haja mais coisas por detrás das palavras que eu canto e, portanto, uma maior intensidade, mas também uma maior maturidade emocional ao lidar com elas. RFI: Foram muitas viagens, muitas voltas, muitas voltas ao mundo e muitas voltas também interiores. Como é que estas viagens influenciaram o teu trabalho? Katia Guerreiro: Influenciam muito, porque quanto mais eu conheço o mundo, mais me fascino com ele. Também tenho algumas...

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As "Terras do fim do Mundo" em exposição em Paris através da objectiva de Jo Ractliffe

3/18/2026
Jo Ractliffe é uma fotógrafa de lugares, muitos deles devastados pela guerra. Começou nos anos 80 a fotografar a sua terra natal, a África do Sul, e no início dos anos 2000 foi até Angola onde vários anos depois do apogeu da guerra civil encontrou os vestígios de um conflito que dividiu e dizimou o país. Jo Ractliffe é sul-africana e começou a fotografar nos anos 80, numa altura em que havia cada vez mais contestação interna e também internacional ao apartheid no seu país. Como artista, Jo Ractliffe começou a questionar os limites da fotografia documental e rapidamente adoptou um estilo que apelida de “política da paisagem”, ou seja, o que uma paisagem nos pode transmitir sobre um país, mas também um tempo, muitas vezes o passado. A fotógrafa continua ainda hoje a questionar a presença do passado no presente e a capacidade de uma fotografia conter o poder da contradição. O Museu Jeu de Paume, em Paris, dedicado à fotografia, decidiu organizar uma retrospectiva de Jo Ractliffe, patente até 24 de Maio, com o nome “En ces lieux”, ou nesses lugares, em português. O percurso começa com algumas das suas primeiras fotografias nos anos 80, muitas realizadas em subúrbios industriais, fábricas abandonadas, campos de realojamento onde a pobreza e as desigualdades sociais eram flagrantes. As imagens na exposição visam esta reflexão da fotógrafa sobre a noção do espaço na História, como explica comissária desta exposição, Pia Viewing. "A exposição inteira foi elaborada e as obras foram selecionadas de modo a reflectir sobre a noção de lugar, de um sítio. Portanto, foi com base nesses diferentes projectos da Jo Ractliffe que selecionámos as imagens da exposição. Isso também significa que essa questão de lugar e espaço é baseada na observação do fotógrafo das propriedades do espaço que foi dividido e separado sob o apartheid e, claro, da segregação racial. Mas não vemos isso directamente nas imagens. Portanto, mais uma vez, estamos diante de um trabalho que sugere, uma obra onde devemos procurar pistas. Somos convidados a observar e a procurar detalhes nas fotografias que nos forneçam informações sobre essa história", disse a comissária da exposição. Em 2007, Jo Ractliffe vai pela primeira vez a Luanda. Angola era então um país recém saído de uma guerra civil que tinha durado quase 30 anos após a colonização de cinco séculos de Portugal. Logo após o fim da guerra colonial e o período da independência em 1975, Angola tornou-se um dos pontos quentes da Guerra-Fria, com a URSS e os Estados Unidos a fornecerem armas e apoio financeiro aos dois lados da guerra civil entre a UNITA e o MPLA. No terreno, outras potencias também se envolveram na guerra civil, como a África do Sul ou Cuba. Com a guerra em Angola a coincidir com os movimentos independentistas da Namíbia face à África do Sul, os sul africanos lutaram ao lado da UNITA nos anos 70 e 80, tendo a batalha de Cuito Cuanavale, a maior batalha da guerra civil angolana, a ter marcado o fim das participações estrangeiras no conflito no país. Mais de 20 anos depois, Jo Ractliffe vai a Angola, primeiro a Luanda e regressa de forma consecutiva nos anos seguintes, fotografando assim as “Terras do fim do Mundo”, nome pelo qual é conhecido o território da província de Cuando Cubango. Algumas das viagens da fotógrafa a Angola foram realizadas com antigos guerrilheiros sul-africanos para documentar os lugares onde a guerra tinha acontecido e o que restava nas paisagens: minas enterradas, casernas e quarteis abandonados ou fossas comuns dissimuladas pela vegetação. "É interessante ver como Jo Ractliffe forma narrativas com estas imagens e como essas narrativas são alimentadas pelos vestígios deixados nos locais onde ocorreram acções do passado. De facto, há uma sala quase completa na exposição dedicada quase inteiramente à guerra em Angola, desde logo à guerra da independência e aos vários conflitos que se seguiram à independência de Angola em 1975. Portanto, Jo Ractliffe foi a Angola em 2007 e...

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“É urgente” salvar as línguas crioulas de São Tomé e Príncipe

3/10/2026
As línguas crioulas de São Tomé e Príncipe estão em risco de extinção e é urgente agir. A constatação tem vindo a ser feita ao longo dos anos, mas não tem havido a necessária revitalização destas línguas, pelo que elas “enfrentam um risco agravado de desaparecer ao longo do tempo”. Neste programa, convidámos o linguista Tjerk Hagemeijer para compreendermos o tema e tentarmos perceber o que fazer para salvar os crioulos de São Tomé e Príncipe. São Tomé e Príncipe é “um caso único em África, linguisticamente falando”, começa por dizer Tjerk Hagemeijer, explicando que a antiga língua colonial, a portuguesa, se tornou na “língua nativa dominante”, ou seja, mais falada pela população a uma escala até agora sem paralelo noutro país. Essa ascensão do português começou no final século XIX com “uma reviravolta social e linguística” ligada à abolição da escravatura e à contratação dos serviçais oriundos de Cabo Verde, Angola e Moçambique. O movimento foi-se acentuando e nem o ímpeto das lutas de libertação, nem a chegada da independência contrariaram o crescimento do português como língua franca, falada actualmente por mais de 98% da população de São Tomé e do Príncipe. O professor do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, que tem vindo a estudar este fenómeno há anos, acrescenta que paralelamente à adopção generalizada do português, as línguas locais – forro, lung’ie e angolar - foram-se diluindo. No último censo de 2012, o forro era falado por cerca de 36%, o angolar por mais de 6% e o lung'ie por 1%, “mas provavelmente 1% inflacionado porque serão muito menos falantes”, estimados em “algumas centenas” na ilha do Príncipe. Ou seja, é das três línguas fragilizadas, aquela que enfrenta “um iminente risco”, sublinha Tjerk Hagemeijer. Apesar da consciência do património histórico e linguístico e da noção do seu declínio, na prática “não existe verdadeiramente uma política linguística no sentido de activamente promover estas línguas”, mesmo que tenha sido aprovado, em 2013, um Alfabeto Unificado das Línguas Nativas de São Tomé e Príncipe. Por outro lado, já quase não há transmissão das línguas crioulas entre gerações e persistem atitudes estigmatizantes relativamente às línguas minoritárias, o que não estimula a manutenção desse património. “Para salvar a língua, todo o tempo é pouco, é uma questão urgente”, avisa o docente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e especialista nos crioulos do Golfo da Guiné. Entrevista a Tjerk Hagemeijer: “As línguas crioulas entraram em risco de extinção” RFI: Em 2018, o professor já tinha escrito um artigo em que falava sobre São Tomé e Príncipe, explicando que era um caso à parte em África, linguisticamente falando. Em que consiste esse caso à parte? Tjerk Hagemeijer, Investigador do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa: “Em São Tomé e Príncipe há um contexto de multilinguismo, portanto, há uma língua oficial, que é o português, que convive com várias línguas crioulas: o forro, o angolar, o lung'ie e também o cabo-verdiano por causa da própria história, sobretudo o século XX, de São Tomé e Príncipe. São Tomé e Príncipe é um caso em que, sobretudo a partir de finais do século XIX, altura em que o país ainda era um país crioulófono, começou a ter cada vez mais falantes do português, não necessariamente como língua materna, mas houve claramente uma ascensão da língua portuguesa por causa da história de São Tomé e Príncipe, do chamado regime do contrato dos trabalhadores de fora: de Cabo Verde, de Angola, de Moçambique que foram trabalhar para as empresas agrícolas de São Tomé e Príncipe e que muitas vezes adoptaram o português como língua de comunicação. Portanto, o português foi crescendo como língua franca, cada vez mais, em detrimento das línguas crioulas. Houve também um período, a chamada Segunda República, em que claramente a população começou a assimilar cada vez mais o português porque era uma língua de ascensão socioeconómica. Chega a Independência, altura...

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Resgatar imagens das lutas de libertação é “gesto urgente” no mundo actual

3/3/2026
Neste programa, vamos falar sobre a publicação "Resistência Visual Generalizada: Livros de Fotografia e Movimentos de Libertação", organizada por Catarina Boieiro e Raquel Schefer e que foi apresentada a 26 de Fevereiro em Paris. A obra reúne um conjunto de livros, fotografias, revistas e boletins dos movimentos de libertação produzidos entre as décadas de 1960 e 1980, no contexto das lutas anticoloniais de libertação e dos primeiros anos de independência em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde. Raquel Schefer falou-nos sobre este projecto que também se materializou em exposições, e lembrou que recolocar em circulação imagens de há 50 anos “é um gesto urgente” perante a situação política mundial actual e perante a invisibilização de lutas históricas. A obra "Resistência Visual Generalizada: Livros de Fotografia e Movimentos de Libertação" debruça-se sobre um conjunto de livros de fotografia publicados durante as lutas de libertação dos países africanos de língua portuguesa e sobre publicações editadas pouco depois das independências. O projecto é da autoria de Catarina Boeiro e Raquel Schefer e começou em 2018 quando as investigadoras obtiveram uma bolsa para um projecto curatorial sobre o tema, algo que resultou em exposições no Instituto Nacional de História da Arte, em Paris, entre Novembro de 2021 e Janeiro de 2022, no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional – Galerias Municipais de Lisboa, entre Setembro e Novembro de 2022, e, em versão reduzida, no âmbito da 10ª Mostra de Cinema Anti-Racista (MICAR), organizada pela associação SOS Racismo, no Batalha Centro de Cinema, no Porto, em Novembro de 2023. A publicação constitui um arquivo visual e textual dos materiais exibidos nas exposições, dando-os a conhecer, contextualizando a sua produção no âmbito dos movimentos emancipatórios das lutas de libertação e recolocando-os em circulação como “um gesto urgente” contra um certo “apagamento” histórico e visual e “tendo em conta a situação política mundial actual”, sublinhou Raquel Schefer. “Esse conjunto de livros é um retrato eloquente do paradigma de emancipação das décadas de 60 e 70 dos processos de descolonização dos países africanos, mas também das redes de solidariedade internacionalista desse período porque - sobretudo na primeira etapa correspondente às lutas de libertação - os fotógrafos e jornalistas que viajavam às zonas libertadas de Angola, Moçambique e da Guiné-Bissau eram fotógrafos internacionalistas como Augusta Conchiglia, que é italiana, o Uliano Lucas, também italiano, o Tadahiro Ogawa, um fotógrafo japonês, entre outros exemplos. Consideramos e constatamos, tanto eu como a Catarina, que há um processo de revisão da história em curso e mesmo um processo de reordenação semântica, de apagamento do paradigma de emancipação das décadas de 60 e 70, de apagamento das suas visualidades, e parece-nos mesmo um gesto urgente, tendo em conta a situação política mundial actual, recolocar essas imagens e essa História em circulação”, disse à RFI Raquel Schefer. A professora de cinema na Universidade Sorbonne-Nouvelle lembrou que, nos tempos das lutas de libertação, há pouco mais de meio século, “a produção de imagens revelou-se como uma arma no quadro das lutas de libertação”. Por um lado, porque através das imagens fotográficas e cinematográficas se podia documentar a luta de libertação e, nomeadamente, as novas formas de organização social e de pedagogia que eram desenvolvidas nas zonas libertadas. Por outro lado, porque não se tratou apenas de documentar, “tratou-se também de reinventar a estética e, nesse sentido, essa própria descolonização da estética é - e era - uma arma de libertação, para citar Amílcar Cabral”. Na introdução da obra, Catarina Boeiro e Raquel Schefer assumem que “o gesto de reunir e apresentar um conjunto de livros e documentos que oferecem, tanto em termos historiográficos, quanto em termos visuais, o reverso da narrativa veiculada em Portugal, tanto no contexto educativo, quanto...

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“África é um continente riquíssimo em termos de património natural e cultural”

2/25/2026
O Presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, reafirmou o compromisso com a valorização do património africano, defendendo que a riqueza natural e cultural do continente deve ser colocada ao serviço do desenvolvimento sustentável. O estadista defendeu que o património africano, muitas vezes “silenciado”, deve ganhar visibilidade e integrar a lista de Património Mundial da UNESCO: “Queremos que mais países inscrevam o seu património natural e cultural”. Na qualidade de Champion da União Africana para a Preservação do Património Natural e Cultural de África, o chefe de Estado de Cabo Verde sublinhou que “África é um continente riquíssimo em termos de património natural e cultural” e alertou para a necessidade de transformar esse potencial em oportunidades concretas: “É preciso colocar toda esta riqueza ao serviço do continente africano”. À margem da 39.ª Sessão Ordinária da Assembleia da União Africana, que decorreu em Addis Abeba, o Presidente de Cabo Verde liderou um evento de alto nível subordinado ao tema “Património Mundial e Segurança Hídrica em África: Construir Caminhos para a Sustentabilidade e a Agenda 2063”, promovido por Cabo Verde no quadro das comemorações do 20.º aniversário do Fundo Africano para o Património Mundial. José Maria Neves defendeu que o património africano, muitas vezes “silenciado”, deve ganhar visibilidade e integrar a lista de Património Mundial da UNESCO: “Queremos que mais países inscrevam o seu património natural e cultural”. “O que pretendemos é que o património natural e cultural africano seja uma alavanca para o desenvolvimento sustentável do continente”. Segundo o Presidente, investir na preservação pode impulsionar sectores estratégicos: “O património pode levar ao crescimento do turismo, dos transportes, das indústrias criativas, à criação de emprego e de novas oportunidades para a juventude africana.” O estadista apelou ainda ao reforço do financiamento internacional e ao envolvimento do sector privado. “É preciso estimular as agências internacionais no sentido do financiamento da preservação”, defendendo que também os privados devem alocar recursos ao fundo africano. Segundo o chefe de Estado, está em curso um esforço de sensibilização junto de Estados-membros, parceiros internacionais e sector privado. “Falamos em mobilizar recursos em torno de 20 milhões de dólares americanos para o relançamento do seu trabalho”, afirmou, clarificando, contudo, que a fase actual não é ainda de angariação directa de montantes. “Está-se a fazer mais um trabalho de sensibilização e não um trabalho de recolha de valores específicos neste momento”, explicou. No plano nacional, José Maria Neves revelou que Cabo Verde tem projectos a serem trabalhados com o Fundo Africano para o Património Mundial. Entre eles, destacou a candidatura do Campo de Concentração do Tarrafal a Património Mundial e o processo relativo aos Escritos de Amílcar Cabral. O país já conta com a Cidade Velha classificada pela UNESCO, estando em curso o levantamento de “patrimónios silenciados” para valorização futura . O Presidente destacou a ligação entre património e segurança hídrica, apontando a gestão sustentável da água como factor crítico para o futuro do continente. “Fizemos referência à relação entre a água, os recursos hídricos e o património mundial, enquanto instrumentos que poderão levar-nos ao desenvolvimento sustentável e ao cumprimento da Agenda 2063”, referiu, assinalando a “grande abertura” das agências parceiras para apoiar iniciativas nesta área. “O património natural e cultural são as nossas catedrais e basílicas”, concluiu, defendendo que a sua preservação pode contribuir “enormemente para o crescimento da economia e para a melhoria das condições de vida dos africanos”.

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Beatriz Batarda é a madrinha da segunda edição do festival de cinema "Olá Paris!"

2/18/2026
A actriz portuguesa Beatriz Batarda é madrinha e convidada especial da edição deste ano do festival "Olá Paris!" que mostra na capital francesa uma selecção de cinema português aberta ao público e aos profissionais do cinema francês. O Festival Olá Paris volta à capital francesa com uma segunda edição, destacando o trabalho dos realizadores e actores portugueses, com a estreia de vários filmes e uma nova madrinha. Se na primeira edição, esta distinção coube a Maria de Medeiros, em 2026 a madrinha do Festival Olá Paris, que decorre entre 6 e 8 de Março, é Beatriz Batarda, uma das actrizes mais destacadas da sua geração. Em entrevista à RFI, a actriz explica a sua afinidade com a França e com a língua francesa, assim como os dois filmes que protagoniza e que poderão ser vistos em Paris durante o Festival. “A minha família materna é francesa e emigrou para Portugal no final dos anos 30, se não me engano, e portanto ainda tenho alguma família em França e fiz aqui o Liceu Francês em Lisboa porque os meus avós faziam questão e por isso essa, essa relação com a cultura francesa esteve sempre viva. Como é que eu vou parar a este lugar através do convite? Não sei o que é que lhes passou pela cabeça convidarem-me, mas penso que terá sido também esta sensação de facilidade, não com a língua, porque eu já não falo tanto francês como como falava antes, mas essa compreensão, se calhar desse encontro, desse lugar, desse encontro das duas culturas. Eu sempre tive essa sensação de que eu não não era nem francesa nem portuguesa. Era um lugar próprio”, explicou a actriz. Em Paris, da primeira edição, onde esteve presente também com dois filmes, Beatriz Batarda guarda sobretudo as abordagens dos espectadores franceses, interessados no cinema pelo seu valor intrínseco, independentemente de ser ou não cinema português. Para esta edição, Beatriz Batarda assume ter tido algumas trocas com a organização e assume que as escolhas do cartaz são ousadas. Nesta segunda edição, Beatriz Batarda protagoniza dois dos filmes apresentados: “18 buracos para o Paraíso”, de João Nuno Pinto, e “O Vento Assobiando nas Gruas”, assinado por Jeanne Waltz a partir do romance de Lídia Jorge. Duas películas actuais e que falam de temas prementes tanto em Portugal como em França. “[O Vento Assobiando nas Gruas] Fala da impossibilidade de deixar o colonialismo para trás. É a utilização das mulheres para preservar uma postura machista e colonialista perante os outros. A personagem que eu interpreto é uma mulher que é completamente dominada pelo universo masculino e que para ganhar algum poder ou para se impor em relação ao resto da família, masculiniza-se ela própria e tem um pensamento muito pouco solidário com as mulheres, ou com a fragilidade ou com a diferença. E o filme do João Nuno não é menos pertinente, porque também é uma uma proposta com uma crítica interessante sobre a venda do território português aos grandes grupos que compram assim hectares e hectares e que depois tentam transformarem em resorts e ocupam uma zona do país mais a sul, que é muito bonita de facto e que é muito agradável e o clima é muito agradável, mas que tem poucos recursos de água. Essa água é preciosa para a agricultura e para o gado e para as populações locais. E, portanto, levanta essa questão dessa drenagem sem qualquer limite, sem qualquer regra. Dos poucos recursos da terra”, concluiu.

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BD “Eldorado” retrata um Brasil entre a realidade e o sonho do futebol

2/4/2026
Eldorado” é o novo trabalho do autor brasileiro de banda desenhada Marcello Quintanilha, lançado em Janeiro pela editora belga Le Lombard. Através da história de dois irmãos, a BD esboça um retrato social do Brasil, dos anos 50 aos anos 70, ritmado pela paixão do futebol, pela música, pelas desigualdades sociais, pela criminalidade e por uma política autoritária. Poderá o sonho da bola sobreviver à dureza do terreno fora das quatro linhas ou estará destinado a ficar fora de jogo num Brasil sem ilusões? “Eldorado” cruza o destino de dois irmãos, Hélcio e Luís Alberto: um sonha com uma carreira de futebol profissional e o outro é apanhado nas malhas da delinquência. Através deles, é a própria história do Brasil, dos anos 50 aos anos 70, que acompanhamos. A música é omnipresente, numa banda desenhada marcada pelo movimento, planos cinematográficos, um espectro de cores nostálgicas e uma palete de emoções que pinta a complexidade das personagens. “Esse livro recupera o mito do filho pródigo inserido no contexto da classe trabalhadora brasileira da metade do século XX e é uma história de erros, é uma história de afrontar os erros, é uma história de repensar os erros e de tentar solucionar tudo aquilo que dissemos, tudo aquilo que fizemos e que não pode mais ser refeito a não ser ser compreendido e ser um ponto de partida para um novo futuro”, conta Marcello Quintanilha à RFI. “Eldorado” começa com uma introdução sobre a história do Brasil, a preto e branco, inspirada nas gravuras dos folhetos de cordel do nordeste do país. Aí se conta como o futebol, introduzido no país como um desporto de ricos, foi tomado pelas classes populares e se tornou numa revolução silenciosa com uma “faceta jovem, igualitária, impetuosa e transgressiva”. Aí também se conta como, ao longo do século XX, a criminalidade se alimentou da ausência de políticas públicas de inclusão e das desigualdades económicas e sociais e como o contexto político e histórico agravou essas mesmas desigualdades e mergulhou o país numa crise que continua a ameaçar a democracia brasileira até hoje. Nesta obra descrita como um policial neo-realista, as personagens de Hélcio e Luís Alberto vão incarnar a complexidade desse Brasil, entre os anos 50 e 70, na cidade de Caxias, na região do Rio de Janeiro. Esta é também uma história que se inspira no pai de Marcello Quintanilha, um antigo jogador profissional que teve de parar de jogar muito jovem, o que levou a que o tema do futebol fosse, durante muito tempo, um tabu na família. “Metade do livro é baseada na história real dele e a outra metade do livro é uma história ficcional, policial, que serve como espelho entre as duas vertentes: a real e a ficcional”, explica o autor. A influência do pai e a personagem de Hélcio já apareciam noutro trabalho de Marcello Quintanilha, "Luzes de Niterói" (2018). O lado humano das personagens é uma linha de força da obra do autor, em que o passar do tempo, a arquitectura e o próprio Brasil são também personagens. “Eu acho que os meus livros tratam de coisas que eu considero muito humanas. Acho que é, por isso, que o meu trabalho vem despertando tanto interesse fora do Brasil, porque eu trato dos personagens de uma maneira muito humana e a condição humana é algo compartilhado universalmente. Então, Eldorado insere-se no mesmo contexto, na mesma concepção de personagens, na mesma concepção do mundo”, acrescenta. Uma concepção do mundo que tem conquistado o mercado editorial de banda desenhada na Europa, nomeadamente o Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, em França. Aí venceu, em 2022, o prémio de melhor álbum, Fauve d’Or, com “Escuta, formosa Márcia” e também ganhou, em 2016, na categoria de melhor história policial com “Tungsténio”, uma BD que também foi adaptada a filme. Nascido em Niterói, no Brasil, em 1971, Marcello Quintanilha passou de autodidacta a um dos maiores autores da BD brasileira contemporânea. Começou a trabalhar para uma editora aos 16 anos e publicou em...

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“O silêncio também é político”: Isabél Zuaa em O Agente Secreto

2/4/2026
Passado em 1977, durante a ditadura militar brasileira, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, constrói um retrato da repressão através de gestos íntimos e do que fica por dizer. Integrando um elenco, Isabél Zuaa interpreta Teresa Vitória, uma mulher angolana exilada, formada em Portugal. Em entrevista, a actriz fala do trabalho colectivo, da política inscrita nos corpos e da força do silêncio num filme em plena consagração internacional. Passado em 1977, em plena ditadura militar brasileira, O Agente Secreto afirma-se como um dos mais rigorosos e inquietantes retratos cinematográficos da repressão política no Brasil. O novo filme de Kleber Mendonça Filho recusa a explicação directa e opta por uma construção sensorial, onde a vigilância, o medo e o desgaste moral do autoritarismo se infiltram na vida do dia-a-dia, nos afectos e nos gestos. Esse olhar oblíquo tem garantido à obra um percurso internacional sólido, múltiplas distinções em festivais e, mais recentemente, a entrada na corrida aos Óscares, com nomeações em quatro categorias. Integrado numa narrativa assumidamente coral, o filme assenta num trabalho colectivo visível, quase orgânico. Para Isabél Zuaa, que interpreta Teresa Vitória, essa dimensão foi determinante. “O que mais me marcou foi a simbiose entre a equipa técnica e a equipa artística, os actores, a preparação de elenco, todo o ambiente da cidade do Recife”, afirma. Segundo a actriz portuguesa, o envolvimento foi tal que “as pessoas estavam todas a torcer para que o filme desse certo” e “muita gente queria fazer parte”. Essa experiência revelou-se particularmente singular pela escala do projecto. “Essa simbiose não costuma acontecer assim num filme tão grande”, sublinha Isabél Zuaa, lembrando que, apesar de se tratar de uma produção com profissionais “de Angola, de Portugal, da Alemanha e de vários lugares do Brasil”, se criou um ambiente de rara coesão. “Normalmente, essa ligação é mais evidente em filmes menor escala”, acrescenta, destacando o carácter excepcional do processo de trabalho. A actriz atribui grande parte dessa atmosfera à forma de dirigir de Kleber Mendonça Filho, que descreve como “um gentil gigante, amante do cinema”. Esse amor pelo cinema traduz-se, segundo Isabél Zuaa, numa atenção constante ao detalhe e às pessoas: “Ele trata tudo com muito carinho, com muita atenção, com muito cuidado”, criando um set onde “toda a gente está a torcer e a cuidar para que o filme e todas as coisas deem muito certo”. Mais do que uma hierarquia rígida, impôs-se uma lógica de trabalho assente na colaboração, na escuta e no respeito mútuo. A entrada de Isabél Zuaa no projecto foi inesperada. As filmagens já tinham começado quando recebeu o convite, num momento em que se encontrava em Lisboa, prestes a entrar de férias após concluir outro filme. A personagem que lhe foi proposta trazia, porém, uma complexidade invulgar. Teresa Vitória inspira-se numa mulher angolana real, ligada à história pessoal do realizador, e cruza trajectos coloniais, exílio e formação académica em Portugal. “É uma mulher angolana que estudou em Portugal”, explica a actriz, sublinhando a densidade histórica da experiência. Essa dimensão atravessa a construção da personagem, marcada por uma desilusão política e existencial. Isabél Zuaa recusa uma leitura simplista do seu estado emocional: mais do que uma depressão, trata-se de “uma desilusão com a circunstância em que ela se encontra”, por não poder estar “nos seus países de origem e de referência” e por se sentir deslocada face aos rumos tomados pela história. A personagem ocupa, assim, um lugar ético complexo, recusando alinhar com lógicas de guerra. “Guerra é sempre guerra”, afirma, sublinhando a posição humanitária de Teresa Vitória. O trabalho vocal e corporal assume aqui particular relevância. A opção por um português europeu, atravessado por uma musicalidade africana subtil, responde a um rigor histórico e simbólico. “É uma mulher africana com formação em Portugal”,...

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Les Portugayz: um podcast sobre amizade, homossexualidade e as raízes portuguesas

1/28/2026
Um podcast escrito e produzido por Arthur Vacher, luso-descendente, traça a história de uma amizade entre três rapazes homossexuais que os aproxima das raízes portuguesas e os ajuda a enfrentar as dificuldades do dia a dia. Três rapazes gays, com vinte e poucos anos, de origem portuguesa, trabalham juntos num dos grandes armazéns de Paris. Aqui começa uma história que os vai levar não só a descobrir o verdadeiro sentido da amizade, mas também a reabilitar as raízes portuguesas muitas vezes envoltas em preconceito e discriminação. Esta história é contada na primeira pessoa por Arthur Vacher, no podcast “Les Portugayz”, que vai no terceiro de cinco episódios. Em entrevista à RFI, Arthur, acompanhado por Adrien Deleu Pinto, protagonista também desta história, falaram sobre a importância dos amigos, numa altura em que vivemos cada mais sozinhos e isolados, especialmente numa grande cidade como Paris. Arthur Vacher: "Sim, é tanto sobre amizade quanto sobre solidão. É, como dizer... Percebi ao escrever esta história que nós os três partilhávamos uma grande tristeza, uma grande solidão em relação à nossa vida em geral, mas também em relação ao mundo gay, que às vezes nos isolou uns dos outros, uns com os outros e uns contra os outros. Então, ter amigos é algo muito precioso. Permite superar essa solidão que podemos atravessar na vida, que toda a gente pode atravessar. E, foi por isso, que quis contar esta história" Adrien Deleu Pinto: "É verdade que do que precisávamos, creio eu, tanto o Arthur quanto o Joseph e eu, era de ter amizades gays. E aconteceu de nós três partilharmos também a cultura portuguesa, o que foi um pouco a cereja no topo do bolo. Foi isto que solidificou o trio. E isso aconteceu num momento das nossas vidas, de nós os três, em que realmente precisávamos disso. Por isso, fico muito emocionado que o Arthur tenha se apropriado disso para transformar num podcast" Arthur Vacher: "Não precisamos estar bem para ter um amigo. Para ser amado. E foi isso que compreendemos ao apoiar-nos uns aos outros. Estávamos lá. E só porque eu estava mal e ligava para o meu amigo Adrien ou para o Joseph, e tinha apenas uma conversa com eles, isso já tornava a minha vida um pouco mais fácil" Os três rapazes formaram então um clube de cinema português e rapidamente se tornaram amigos próximos, uma experiência que conta a ambiguidade e dificuldade de distinguir a amizade da sedução nas comunidades homossexuais e como essa certeza e necessidade de amigos se tornou uma pedra angular da relação entre os três. Arthur Vacher: "Eu estava a passar por um período bastante difícil e, na verdade, a prioridade não era encontrar o amor da minha vida ou de ter uma vida sexual. Essas eram coisas secundárias para mim naquele momento. E a amizade, esses gestos, essa ternura que não é sexual, mas que é algo totalmente diferente... Para mim, isso permitiu emancipar-me dessa depressão, mas também partilhar momentos muito ternos, ter muito amor para dar e também para receber dos meus amigos." Adrien Deleu Pinto: "Acho que, nas comunidades gays, já existe frequentemente a noção de "família escolhida", porque precisamos nos reencontrar com pessoas que se sentiram rejeitadas nalgum ponto das suas vidas. Mas, além disso, no contexto da nossa amizade, eu tinha acabado de perder a minha avó portuguesa, que era um pouco o meu pilar pessoal e o meu pilar dessa cultura. E, por isso, acho que quando nós os três nos encontramos, houve uma necessidade de reinvestir tudo o que ela me tinha transmitido e de recriar uma família com o Arthur e o Joseph." A ideia de documentar esta amizade singular surgiu logo no espírito de Arthur que foi gravando alguns momentos partilhados, mas a quebra do laço com Joseph levou a alguma hesitação. Adrien, que é protagonista e intervém mesmo no podcast, diz que fica emocionado com a forma como Arthur refaz o percurso desta afinidade. Adrien Deleu Pinto: "Originalmente, era um projeto que queríamos levar adiante os três, mas não...

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“Não há culturas lusófonas: há memórias em disputa e uma língua de pertença múltipla”

1/20/2026
A crítica literária são-tomense Inocência Mata defende que falar de culturas lusófonas é simplificar um espaço marcado por línguas diversas e memórias em conflito. Entre disputas históricas, silêncios pós-coloniais e reapropriações da língua portuguesa, a académica sublinha o papel da escrita como resistência ao esquecimento e aponta para uma literatura contemporânea mais descomplexada, que assume a história comum sem a justificar nem a mitificar. A língua portuguesa atravessa geografias, histórias e memórias que nem sempre se conciliam. No espaço dos países que a usam, a cultura e a literatura tornaram-se lugares privilegiados para revisitar essas heranças, muitas vezes conflituosas. Para a ensaísta e crítica literária são-tomense Inocência Mata, pensar este universo implica começar por questionar a própria linguagem com que o nomeamos: “Eu não utilizo ‘culturas lusófonas’. Prefiro dizer culturas dos países de língua portuguesa, porque nem todas são lusófonas.” A recusa do termo não é apenas semântica. Aponta para uma realidade plural, marcada por línguas africanas e crioulas, e por uma permanente disputa de memórias. “Ainda é um campo de alguma disputa, e isso é natural”, afirma, lembrando que mesmo países com dois séculos de independência, como o Brasil, continuam a debater heranças coloniais: “Houve independência política, mas nunca houve verdadeira descolonização.” A persistência da escravatura décadas depois da independência é, para a académica, um exemplo eloquente dessa contradição histórica. Quando se alarga o olhar a vários países, a complexidade aumenta. A ideia de um manual único de história suscita-lhe reservas imediatas. “Eu torço o nariz, sou contra”, diz, evocando a dificuldade de conciliar narrativas opostas: “Como é que num mesmo manual se escreveria aquilo que os portugueses chamam campanhas de pacificação e os africanos chamam lutas de resistência?” A disputa de memória, sublinha, não exclui o diálogo, mas exige consciência crítica. Mais do que insistir numa retórica conciliadora, prefere uma abordagem pragmática: “Há muita coisa que separa. O importante é capitalizar aquilo que une.” Essa união não apaga conflitos, mas permite reconhecê-los como parte de uma história comum, sem hierarquias morais simplificadoras. Na literatura, essa tensão manifesta-se de forma particularmente nítida. A escrita surge como aquilo que mais resiste ao esquecimento. “O que continua a resistir é a escrita”, afirma, lembrando que, após o 25 de Abril, a África praticamente desapareceu da literatura portuguesa. “É como se os portugueses quisessem esquecer a África.” Só a partir da segunda metade dos anos 80 esse silêncio começou a ser quebrado. Esse reaparecimento resulta, em seu entender, de uma tomada de consciência identitária. “Portugal não se pode pensar sem a África”, afirma, rejeitando comparações com países sem passado colonial. A literatura começou então a integrar essa memória, primeiro marcada pela guerra, depois por narrativas mais complexas, em que a África surge como parte constitutiva da identidade portuguesa. Hoje, os sinais que mais a impressionam são outros. “Vejo uma atitude descomplexada sobre a história.” Já não predomina uma escrita justificativa ou exclusivamente anticolonial, necessária noutro tempo, mas superada como tendência. Escritores de diferentes origens escrevem a partir de uma história comum assumida como facto, não como culpa ou exaltação. No centro dessa transformação está a língua. “Foi imposta, sim, mas hoje é assumida, nativizada, apropriada.” Não pertence a um único país nem exige autorização simbólica. “Ninguém está a fazer favor a ninguém”, afirma, rejeitando a ideia de que uns salvam a língua dos outros. Para a crítica, o português é “uma língua de pertença múltipla, multicêntrica”, que aproxima povos sem apagar diferenças, e é nessa tensão que a literatura encontra o seu futuro.

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“Kumina”: Victor de Oliveira leva a palco a brutalidade do exílio e a tragédia dos migrantes

1/13/2026
O encenador e actor luso-franco-moçambicano Victor de Oliveira leva a palco o seu novo solo, “Kumina”, no Théâtre des Quartiers d’Ivry - CDN du Val-de-Marne, a partir desta terça-feira e até sábado. A peça mostra o lado brutal, universal e intemporal do exílio, convocando as memórias dos que não resistiram ao desenraizamento, dos escravos de ontem aos migrantes que hoje morrem no Mediterrâneo. “Kumina” é também um ritual para tentar abrir portas onde hoje se erguem muros. Fomos gravar esta entrevista no Théâtre des Quartiers d’Ivry - CDN du Val-de-Marne, na região de Paris, onde está em cena, entre 13 e 17 de Janeiro, “Kumina”, o novo solo de Victor de Oliveira, escrito, encenado e protagonizado por ele. A peça aborda a história íntima, universal e intemporal do exílio. Partindo das memórias de infância em Moçambique, o país onde nasceu em 1971 e de onde saiu com os pais a seguir à independência, Victor de Oliveira olha para o mundo a partir da própria experiência de desenraizamento e faz do palco um espaço de memória daqueles que tudo perderam ou se perderam nos caminhos forçados do exílio. Este é também um olhar sobre a História: sobre o tráfico transatlântico de milhões de pessoas, sobre o colonialismo, sobre os “boat people” haitianos nos anos 90, sobre os migrantes que ainda morrem no Mediterrâneo ao tentarem chegar à Europa. Uma História ligada por um fio invisível de um sentimento de "déjà vu" de histórias que se repetem século após século, dia após dia. O texto cruza experiência pessoal com o peso da História, com notícias que ritmam a televisão e com a poesia de autores que abordaram o exílio, transformando o palco de "Kumina" num espaço “sagrado”, onde se podem convocar antepassados, esperar uma reconciliação e remar contra pujantes marés de xenofobia. “Todas essas histórias de exílio, toda essa história de desenraizamento, toda essa história de não aceitação do outro, porque o outro é um estrangeiro, não é apenas de agora”, resume Victor de Oliveira em entrevista à RFI. Em palco, como uma estátua, quase sem mexer os pés, Victor de Oliveira vai lembrando oceanos de exilados, tanto os vivos, quanto os que ficaram no fundo do mar. Em cena, um vasto cobertor de sobrevivência pinta o fundo e o chão é feito de terra vermelha. Neste "exílio da terra de ninguém" - ouvimos - reina “a sensação de impossível pertença”... “Kumina” surge depois de “Limbo”, outro solo que assinou em 2021 sobre a busca de identidade de um homem entre dois mundos, entre dois países, entre duas condições, entre negros e brancos, entre colonos e colonizados. “Kumina” surge também depois de ter adaptado “Incêndios”, de Wajdi Mouawad, e “As Areias do Imperador”, de Mia Couto, os quais também buscavam as pontes, talvez quebradas, entre dois mundos. A peça “Kumina” está no Théâtre des Quartiers d’Ivry - CDN du Val-de-Marne de 13 a 17 de Janeiro e no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa, de 26 a 29 de Março. Também será lançado um livro que reúne os textos, em português, de “Kumina” e de “Limbo”, numa co-edição da Tinta da China e do Teatro do Bairro Alto. Em francês, será lançado o texto de “Limbo” pelas Editions Chandeigne. RFI: Para começar, peço-lhe uma pequena descrição deste trabalho “Kumina”. Victor de Oliveira, Actor e Encenador: “’Kumina’ vem depois de ‘Limbo’ e é um prolongamento, digamos assim, de todas as questões que eu já tinha abordado no ‘Limbo’ que tinham a ver com esse desenraizamento e com essa tentativa de tentar-me situar entre dois mundos essencialmente. E, depois, com o facto de ser um homem mestiço, portanto, neto de colonos e de colonizados, etc, etc, etc. Em relação ao ‘Kumina’, eu volto mais uma vez a pegar no fio da infância porque o espectáculo começa a partir desse momento, a infância, que é o momento em que eu vou partir, em que tenho que partir porque eu nasci em Moçambique durante o período colonial, vivi em Moçambique depois da independência e tivemos que ir embora nos primeiros anos da guerra civil por causa da...

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